A INJUSTIÇA CAPITALISTA
outubro 26, 2008 on 2:29 pm | In Pe. Robson | 2 ComentáriosComo o mercado capitalista funciona em torno de uma teia viciosa, vemos a crise sendo distendida. Por outro lado, também há o esforço paulatino para o controle das bolsas de valores em todo o mundo. São muitos os investidores internacionais que acabam vendendo suas ações e trocando a moeda local por dólar, no intuito de honrar seus compromissos financeiros com os Estados Unidos. Perdendo o valor das ações, as bolsas assolam em queda brusca e, ao mesmo tempo, fecham em baixa alarmante. A crise tem a característica do conhecido “efeito dominó”, ainda mais pelo fato da sociedade estadunidense viver economicamente acima de padrões realmente viáveis: “acostumados aos gastos extremos muitos cidadãos estadunidenses se viram sem saída quando o ritmo dos seus gastos superou a capacidade de quitação das dívidas” (Ítalo Paulo).
Sabemos que os valores não recebidos das hipotecas imobiliárias levaram bancos à falência, dentre eles destaca-se o quarto maior banco dos Estados Unidos: o Lehman Brothers, com 158 anos de história. A crise também fez com que somas altíssimas de dinheiro fossem lançadas no mercado financeiro. O Banco da Inglaterra injetou cerca de 19,9 bilhões de libras (US$ 35,7 bilhões) e mais 19,999 bilhões de libras (25,142 bilhões de euros) no mercado financeiro em atitude emergente. Posteriormente também foram disponibilizados 5 bilhões de libras (US$ 8,93 bilhões), com o objetivo de suprir as reservas dos bancos britânicos. Até mesmo o Banco Central Europeu colocou no mercado financeiro 70 bilhões de euros (US$ 99,4 bilhões) no tentame de minimizar os efeitos da crise na Europa.
Não temos conhecimento das novas premissas salvadoras do sistema nem como será o término da crise, uma vez que até mesmo os economistas têm concedido opiniões errôneas e dados equivocados. Muitos afirmaram que os bancos não iriam falir e o que vimos foi o contrário. Contudo, o que mais nos assusta não é a crise, mas, sobretudo, a incongruência que o mercado capitalista tem para disponibilizar montantes em dinheiro para salvar a economia da crise. Claro que é um esforço descomunal e necessário, no entanto, o questionamento parte de duas realidades intrínsecas: 1. O que move o mercado financeiro à ação desesperada? 2. Quais os interesses que estão por trás das características escusas e muitas vezes injustas do sistema. Explico-me!
Junto à crise dos Estados Unidos está a fome provocada pela má distribuição da riqueza no mundo. Os estudiosos alertam que a escassez de alimentos já atingiu cerca de 815 milhões de pessoas em todo o mundo. Destas, 777 milhões estão nos países desenvolvidos, 27 milhões nos subdesenvolvidos e 11 milhões nos países ricos. Os cientistas sociais afirmam que a fome é a grande responsável por provocar os mais variados tipos de mutilações humanas, carência de incrementos vitamínicos em bebês, debilidade mental, crimes e até ceguidade.
Somados a fome também estão aqueles que vivem abaixo da linha da pobreza. No Haiti, por exemplo, a população perdura até os 57 anos de idade e com a alimentação 80% acima do valor original devido à inflação. Os haitianos se mantêm por meio do chamado “bolo de lama”, composto por: terra, água, sal e margarina. No Japão cerca de 45 mil pessoas já vivem na miséria. No próprio Estados Unidos já são 3,5 milhões o número de mendigos. No Brasil, o número de doenças e epidemias aumentou, sem falar das epidemias globais que assolam o planeta. No Rio de Janeiro o fim da miséria custaria para os cofres públicos o investimento de 1,3 bilhões por ano. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação se comprometeu a reduzir em 15% o número da subnutrição no mundo e logo depois protelou a respectiva data para 2050. Adia-se a resolução para a fome e a miséria, mas não se protela a crise? Às vezes parece que o lema que nos rege é este: “salvem o mercado e delonguem as soluções para a miséria que chacina a África e a Ásia”.
Por fim, ainda temos as secas e as inundações ocasionadas pelas constantes mudanças climáticas. A estas também podem ser adicionadas às turbulências políticas, sociais e econômicas dos países pobres. E agora perguntemos: quais são as tentativas coletivas do sistema vigente para amenizar, equilibrar e/ou solucionar tais situações dramáticas? Isso nos faz constatar que a ética e a dignidade humana ainda estão esquecidas e acabam sendo empecilhos para o bom desenvolvimento do mercado. É como se a valorização da pessoa não fosse cotada pelas cifras do financiamento descomprometido com a história. Não se trata de ajuda caritativa dos países ricos aos pobres, mas, sobretudo, da consciência de que somos responsáveis pela fome e a miséria do mundo!
Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
www.paieterno.com.br
POR UMA EXISTÊNCIA MAIS ESPIRITUAL
outubro 5, 2008 on 2:44 pm | In Pe. Robson | 5 ComentáriosInfelizmente ainda é intensa a quantidade de pessoas que se distanciam da experiência da fé. Esperam chegar à terceira idade para assumirem uma vida de conversão em Deus. Muitos são aqueles que pensam a espiritualidade como um meio de tolir a nossa liberdade. Espiritualidade seria sinônimo de carolice, fechamento, isolamento das pessoas e das coisas boas da vida, resignação e sofrimento. Viver espiritualmente não é uma perda, mas um ganho da pessoa humana. Ganhamos em qualidade de vida ao nos tornamos pessoas redimidas pela experiência de Deus. Nossa vida ganha sentido, nosso coração lucra um norte e nossa história se investe esperança! Parece até uma linguagem capitalista, todavia é só uma forma de linguagem para expressar que Deus não nos tira nada, pois é pura gratuidade. A única coisa que perdemos é aquilo que nos afasta de seu amor de Pai e de sua ternura de Mãe.
O objetivo maior da vida espiritual é comunicar às pessoas o cenário do Transcendente e a hierofania do Sagrado no tempo. É um caminho de silêncio e de busca incessante pela face do Divino que se apresenta na solidão acompanhada pelo humano. Aqui a oração se apresenta como essencial para a vivência do Reino de Deus. A oração é o hálito da alma e a experiência fundamental para o reconhecimento da necessidade que temos de Deus. Por meio da oração a espiritualidade é gestada no interior da pessoa humana. Vivenciada interiormente a espiritualidade torna-se manifestação de Deus no mundo. Logo depois vem a leitura bíblica, como devoção e não como debate teológico. Em seguida está a entrega contínua à vontade de Deus e por fim, seguem as demais realidades: na autodisciplina, na orientação pelo Espírito Santo, na virtude do amor e no julgamento prático. Na experiência mística a oração se volta para a conversão do “eu interior”: é o momento do “estar a sós” para que o Divino se torne humano e o humano de torne Divino, em um movimento contínuo da encarnação de um no outro, sem simbiose, mas na reciprocidade existencial dos dois seres ontológicos.
Por meio da espiritualidade histórica a mística torna-se a proclamação da liberdade e da fidelidade em Jesus de Nazaré. Assim continuamos a missão redentora de Jesus na peregrinação interior pelas trilhas do mundo. Aprendemos a olhar o mundo e o tempo na ótica de Deus. Diante das dificuldades na peregrinação interior no mundo, Deus se apresenta como o único recurso seguro e eterno. Posteriormente a espiritualidade nos convoca a uma vida piedosa em Deus e a luta paulatina contra a intolerância à justiça e a favor da fraternidade entre os povos. Por outro lado, a espiritualidade também insiste que a mensagem bíblica não deve ficar somente nos redutos, mas deve ser antes impregnada ao coração, para ser vivenciada e testemunhada no mundo. Assim nos tornamos “andarilhos de Cristo” na sociedade.
Na essência da espiritualidade está a dedicação de oferecer-se a Deus sempre e em todo lugar. Viver uma vida de oblação na escola da caridade! Tornamos-nos pessoas atentas às necessidades do mundo. Somos capazes de reconhecer no rosto dos pobres o rosto de Cristo, que ainda peregrina no sofrimento humano. Nossos tímpanos são rompidos pelos gritos de dor e desespero que emana no coração do mundo. A espiritualidade nos ensina o limite da vida e constrói em nós um coração próximo ao de Deus! Por isso, que ao falar de espiritualidade é impossível dissociá-la da conversão da pessoa humana. As raízes do nosso ser são transformadas por meio da experiência em Deus.
Por fim, a espiritualidade não se reduz às técnicas de oração nem somente a caminhos para a meditação. Pelo contrário, ela está presente na gênese da experiência da fé. A espiritualidade também não é só conceito, mas, principalmente vivência eficaz e assaz, com conceitos vivos e sem ambigüidades, do mistério de Deus. A espiritualidade é precisa, simples e extremamente esclarecedora. Resume-se em um modo de ser e viver, no mundo, sob a ótica de Deus. Que estejamos abertos para permitir que Deus possa “ser e viver” em nós!
Pe. Robson de Oliveira Pereira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
www.paieterno.com.br
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