A luz vem ao mundo

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O tempo litúrgico do Advento nos prepara para a vinda do Senhor na celebração do Natal. É um encontro pessoal com Jesus Cristo. Ele vem, pela fé, renascer em nossos corações. O encontro com Jesus ilumina e alegra a nossa vida e nos devolve a esperança por um futuro bom.

Que cada um de nós esteja vigilante e em atitude de oração para acolher a Luz do alto que vem nos visitar: “Deus é luz e nele não há treva alguma. Se caminhamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros” (1Jo 1,5.7). Portanto, quem acolhe a Luz, torna-se livre de toda rixa, contenda e ciúme, busca pacificar o coração para viver em comunhão com os irmãos. E quando é difícil olhar nos olhos de algum irmão ou quando estamos feridos, podemos confiar e esperar que o amor de Deus coloque a nossa cabeça e o nosso coração no eixo. Nunca podemos esquecer que Deus é Pai e sempre vem ao nosso encontro com amor eterno para nos perdoar e nos socorrer em nossas fraquezas. Por meio do Menino Jesus, o Pai Eterno ilumina a nossa vida e revela o seu amor por nós: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12,46).

Jesus Cristo ilumina a nossa vida e restaura em nós a alegre esperança para sermos, com ele, luz e vida para o mundo. Não deixemos que as dificuldades do momento tirem o brilho do amor de Deus que há em nós. Cada um de nós é maior que os problemas que possa ter e é justamente nas horas difíceis que temos a oportunidade de testemunhar ao mundo a razão da nossa fé e da nossa esperança. Quem encontra Cristo encontrou a alegria de viver. Conservemos no coração o mandamento do amor para que a nossa alegria seja plena.

O amor é que ilumina e alegra a vida. O verdadeiro amor se revela nas atitudes. Quem ama como Jesus amou não discrimina pessoa alguma. O amor não faz justiça com as próprias mãos, isto é, não aceita a “lei do olho por olho, dente por dente”. Quem ama perdoa, reparte o pão e paga o mal com o bem. Se amamos, as portas do céu se abrem para nós. Jesus é a maior expressão do amor do Pai por nós. Ele veio ao mundo para nos ensinar a amar porque o amor é a única força que liberta e salva. Que a ternura do Menino Jesus desperte em nós o amor aos irmãos para vivermos alegres e iluminados.

Feliz e abençoado Natal para todos!

Pe. Fábio B. da Costa, C.Ss.R.
Provincial dos Redentoristas de Goiás

Afinal de contas, vale a pena ter esperança?

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Nos tempos hodiernos vivemos imer­sos em uma realidade conturbada! Há todos os instantes somos asso­lados por depoimentos, notícias e situações que testemunham à construção de uma so­ciedade consumista, ególatra e hedonista. Em primeiro lugar o que vale é o consumo, portanto o único interesse presente é consu­mir a própria vida e a dos demais, seguin­do os moldes da mentalidade neocapitalista. Assim, é criado um sistema onde cada um vale aquilo que consome ou produz. As pes­soas passam a ter valorização pelo que tem ou fazem e não pelo que são enquanto filhos de Deus. O consumo confere existência.

O Cogito ergo sum de René Descartes dizia: “Penso, logo existo”, já o consumis­mo atual diz: “Consumo, logo sou”. Será que é possível inculcar valores eternos em uma mentalidade supérflua e passagei­ra? Vale a pena falar de esperança já aqui nesta terra diante da compulsão hiperbó­lica pelo consumo? Até que ponto o con­sumismo não está orientando, guiando e conduzindo a nossa existência como um vírus dispendioso na subjetivação do eu?

Mais adiante vemos configurar-se no cená­rio da existência uma espécie de individualis­mo ultramoderno. Trata-se da doutrina segun­do a qual a sociedade, a economia, a religião e até mesmo Deus, passam a ser analisados em profunda consonância com os critérios do eu individualista. Esta situação também entrou de forma sutil na caminhada tempo­ral da família humana. Em certos contextos sociais fica visivelmente claro alguns dizeres como: “meu carro”, “meu lugar para sentar”, “meu pedaço de carne predileto”, “meu pro­grama de TV”, “minhas manias”, “meu ho­rário”, “minhas vontades”, entre outros. Não há mais a passagem evangélica do “eu” ao “nós”, mas, pelo contrário, do “nós” ao “eu”.

Assim, vamos criando uma vida intimista, cujo resultado é a penhora de toda e qualquer esperança. Não se fala mais de interesses ou imagens coletivas, pois até mesmo no comu­nitário a única bandeira hasteada é exclusiva­mente a do “eu”. Por conseguinte, acabamos por confeccionar uma fé, uma Igreja, uma doutrina, um deus que é nada mais, nada me­nos que a projeção do nosso próprio “eu”.

Vale ressaltar que o individualista não tem a coragem de se visitar e nem mesmo de conhecer sua história existencial, mas somente de se satisfazer. Para o eu indivi­dualista não há sentido nenhum em alicerçar a vida na prática da esperança. Não é nada agradável dispor um pouco de tempo para ajudar na construção de um mundo me­lhor. Não se faz presente em seus compro­missos pensar ou articular meios suficien­tes para a confecção de sistemas dignos de moradia e emprego, pois isso não faz parte da realidade de alguém que não se dispôs para sair de si e ir ao encontro dos demais.

Como consequência da situação, encon­tramos o hedonismo, considerado como a doutrina do prazer pelo prazer. Alguns imaginam que esta última só se verifica no contexto da sexualidade-afetividade. No entanto, se observarmos bem vamos en­contrar pessoas ditas cristãs que só fazem o que lhes concede prazer: só vão à Igreja, à missa, ao terço, às obras de caridade, aos favelados e marginalizados se isso lhes pro­porcionar prazer. Morreu o prazer acabou a esperança de mudança e, na sequência, a opção pelo Evangelho dos pobres de Nazaré.

Agora podemos perguntar: Desde quando é prazeroso cuidar de uma ferida purulenta no corpo ou no coração das pessoas? Até que ponto podemos sentir prazer em reconhecer a situação de miséria em que vive boa par­te de nossos irmãos e irmãs? Muitas vezes ir  à missa ou participar de uma reunião não é prazeroso, mas vamos ao encontro de melho­rias religiosas e sociais, porque esperamos um mundo mais humano e mais digno para todos. Filiamo-nos a uma sociedade alter­nativa, chamada pela Igreja de Civilização da Esperança. Não vivemos em grupo para cumprir um mandamento, mas, pelo con­trário, pelo fato de assumirmos um preceito existencial, no qual somos capazes de dizer a nós mesmos que vale a pena ter esperança!

Como filhos amados do Pai Eterno não nos é lícito deixar de acreditar na vida e muito me­nos cruzar os braços defronte as dificuldades do cotidiano. Não podemos assumir a postu­ra daqueles que cruzaram os braços por que deixaram de ter esperança. “Uma pessoa pode viver quarenta dias sem alimento, três dias sem água, oito minutos sem ar, mas nenhum minuto sem esperança” (Autor desconheci­do). Ela é a vida de Deus que brota em nós.

Deixar de ter esperança é o mesmo que deixar de viver, assumindo, assim, uma realidade vegetativa. Os consumistas, os ególatras e os hedonistas são pessoas que desistiram da existência e abraçaram aqui­lo que lhes foi apresentado imediatamen­te como resposta fácil e descompromis­sada. Iremos nós nos unir a esta torcida? Ou buscaremos forças para ajudá-los na busca de uma realidade mais redentora e redimida à luz dos filhos da esperança?

É tudo uma questão de escolha! A quem queremos servir? Ao desânimo ou a espe­rança? Para tal basta que deixemos passar tudo o que se coloca como resposta imediata para a vida, mantendo os olhos fixos naquilo que é duradouro: Cristo Jesus, autor e consuma­dor da nossa esperança!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

Missionários do Amor de Deus

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No dia 09 de novembro de 1732 nascia a Congregação Redentorista. Santo Afonso afastou-se da cidade e foi recolher-se nas montanhas porque estava cansado. Esse fato simples foi a ocasião que Deus reservou para manifestar-se na vida de Afonso. A Congregação Redentorista é fruto do amor de Deus. A experiência que Santo Afonso fez do amor de Deus, abriu os seus olhos e o seu coração para contemplar e acolher o povo simples e pobre que andava abatido como ovelha sem pastor. Afonso sentiu compaixão daquela gente. Ele cresceu na consciência de que fora ungido para evangelizar os pobres e não teve mais descanso. Decidiu formar um grupo de homens que tivessem fé profunda, esperança alegre e caridade apostólica para testemunhar e anunciar aos mais pobres o evangelho do amor de Deus que a todos quer salvar.

Hoje, os redentoristas assumem o desafio de manter vivo na Igreja o carisma fundacional da Congregação. Isso só é possível ao redentorista que estiver enraizado nas profundezas do coração de Deus. Sem uma profunda e verdadeira experiência do amor de Deus não é possível testemunhar e anunciar o evangelho da copiosa redenção. O que move o missionário redentorista a sair para evangelizar os mais pobres é o amor de Deus que ele experimenta na própria vida: “Nisto conhecemos o Amor: ele deu a sua vida por nós. E nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos”(1Jo 3,16). Para doar a vida aos irmãos, testemunhando e anunciando o evangelho do amor que redime, o missionário redentorista se esforça para ser disponível, dinâmico e criativo. Quando um redentorista se acomoda e coloca restrições para sair em missão, é sinal de que não experimentou o amor de Deus ou esfriou no amor porque descuidou da sua vida espiritual. Cultivar a vida interior, a intimidade com o Santíssimo Redentor é cuidar para que a nossa vida tenha profundidade e esteja enraizada em Deus.

Na força da fé, na alegria da esperança e com o amor de Deus que foi derramado em seu coração pelo Espírito Santo, o missionário redentorista proclama: “Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! Com efeito, é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus!”(Ef 2,4-5.8). Ouvir e acolher no coração essa mensagem do amor de Deus manifestado a nós por meio de Jesus Cristo, ilumina a vida, traz esperança e paz. A pregação do redentorista é para recordar às pessoas o tanto que Deus nos ama e suscitar nos corações a liberdade para corresponder a tanto amor, mediante a conversão para viver a vida nova em Cristo.

Que a exemplo de Santo Afonso, São Geraldo, São Clemente, Pe. Pelágio e de tantos outros missionários santos, nós sejamos também santos, audaciosos e vigorosos no anúncio da copiosa redenção.

Pe. Fábio Bento da Costa, C.Ss.R.

Superior Provincial

Por uma existência mais espiritual

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Na atualidade precisamos recorrer não somente aos tratados espirituais, mas, sobretudo, aos gran­des mestres da espiritualidade para sermos pessoas mais contemplativas e, ao mesmo tempo, mais humanas. Na vida dos místi­cos está o itinerário fundamental para a li­bertação interior do indivíduo: o encontro com Jesus de Nazaré! Nele e por Ele somos capazes de adentrar o mistério de Deus!

Infelizmente ainda é intensa a quantidade de pessoas que se distanciam da experiência da fé. Esperam chegar à terceira idade para assumirem uma vida de conversão em Deus. Muitos são aqueles que pensam a espiritualidade como um meio de tolir a nossa liberda­de. Espiritualidade seria sinônimo de caroli­ce, fechamento, isolamento das pessoas e das coisas boas da vida, resignação e sofrimento.

Viver espiritualmente não é uma perda, mas um ganho da pessoa humana. Ganhamos em qualidade de vida ao nos tornamos pesso­as redimidas pela experiência de Deus. Nossa vida ganha sentido, nosso coração lucra um norte e nossa história se investe em esperan­ça! Parece até uma linguagem capitalista, todavia é só uma forma de linguagem para expressar que Deus não nos tira nada, pois é pura gratuidade. A única coisa que perdemos é aquilo que nos afasta de seu amor de Pai e de sua ternura de Mãe.

O objetivo maior da vida espiritual é comunicar às pessoas o cenário do Transcen­dente e a hierofania do Sagrado no tempo. É um caminho de silêncio e de busca incessante pela face do Divino que se apresenta na solidão acompanhada pelo humano. Aqui a oração se apresenta como essencial para a vi­vência do Reino de Deus. A oração é o hálito da alma e a experiência fundamental para o reconhecimento da necessidade que temos de Deus. Por meio da oração, a espiritualidade é gestada no interior da pessoa humana.

Vivenciada interiormente a espiritualida­de torna-se manifestação de Deus no mun­do. Logo depois vem a leitura bíblica, como devoção e não como debate teológico. Em seguida está a entrega contínua à vontade de Deus e por fim, seguem as demais realidades: na autodisciplina, na orientação pelo Espírito Santo, na virtude do amor e no julgamento prático. Na experiência mística a oração se volta para a conversão do “eu interior”: é o momento do “estar a sós” para que o Divino se torne humano e o humano de torne Divino, em um movimento contínuo da encarnação de um no outro, sem simbiose, mas na reci­procidade existencial dos dois seres ontoló­gicos.

Por meio da espiritualidade histórica a mística torna-se a proclamação da liberdade e da fidelidade em Jesus de Nazaré. Assim continuamos a missão redentora de Jesus na peregrinação interior pelas trilhas do mundo. Aprendemos a olhar o mundo e o tempo na ótica de Deus. Diante das dificuldades na pe­regrinação interior no mundo, Deus se apre­senta como o único recurso seguro e eterno. Posteriormente a espiritualidade nos convoca a uma vida piedosa em Deus e a luta paulati­na contra a intolerância à justiça e a favor da fraternidade entre os povos.

Por outro lado, a espiritualidade também insiste que a mensagem bíblica não deve fi­car somente nos redutos, mas deve ser antes impregnada ao coração, para ser vivenciada e testemunhada no mundo. Assim nos torna­mos “andarilhos de Cristo” na sociedade.

Na essência da espiritualidade está a de­dicação de oferecer-se a Deus sempre e em todo lugar. Viver uma vida de oblação na escola da caridade! Tornamos-nos pessoas atentas às necessidades do mundo. Somos capazes de reconhecer no rosto dos pobres o rosto de Cristo, que ainda peregrina no sofri­mento humano. Nossos tímpanos são rompi­dos pelos gritos de dor e desespero que ema­nam no coração do mundo. A espiritualidade nos ensina o limite da vida e constrói em nós um coração próximo ao de Deus! Por isso, que ao falar de espiritualidade é impossível dissociá-la da conversão da pessoa humana. As raízes do nosso ser são transformadas por meio da experiência em Deus.

Por fim, a espiritualidade não se reduz às técnicas de oração nem somente a cami­nhos para a meditação. Pelo contrário, ela está presente na gênese da experiência da fé. A espiritualidade também não é só conceito, mas, principalmente vivência eficaz e assaz, com conceitos vivos e sem ambiguidades, do mistério de Deus. A espiritualidade é precisa, simples e extremamente esclarecedora. Resu­me-se em um modo de ser e viver, no mundo, sob a ótica de Deus. Que estejamos abertos para permitir que Deus possa “ser e viver” em nós!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

Viver e anunciar o Evangelho

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Refletir sobre a ação evangelizadora da Igreja nos faz lembrar do Apóstolo Paulo, o missionário das Nações, que tinha paixão por Jesus Cristo e uma clara certeza de que a sua vida estava a serviço do Evangelho: “Anunciar o evangelho não é título de glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho!”(1Cor 9,16). Inspirados e provocados pelo ensinamento e pelo exemplo de São Paulo, todos os batizados que fazem a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo pela fé, têm a obrigação de anunciar o evangelho e testemunhar que Jesus Cristo é o Senhor. Muito mais espera-se essa atitude daqueles que consagraram a vida para serem missionários.

Os missionários redentoristas aplicam a si mesmos as palavras do Apóstolo – “Ai de mim, se eu não evangelizar!” – porque têm consciência de que existem para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus aos mais pobres e abandonados. “A Congregação participa do mandato da Igreja que, por ser sacramento universal de salvação, é, por natureza, missionária”(C. 1). A nossa ação evangelizadora tem por objetivo levar as pessoas ao pleno conhecimento de Jesus Cristo pela fé, e, consequentemente, à conversão para que vivam na dinâmica do Reino de Deus e cheguem à salvação.

O grande desafio para o missionário é que ele seja um homem de fé e que esteja em contínuo processo de conversão. Palavra e atitude não se separam. Por isso, nossos desejos e nossos sentimentos precisam ser evangelizados, pois o modo de viver do missionário é um eloquente anúncio do evangelho, ou não.

Crer em Jesus Cristo e viver de acordo com o evangelho é tarefa dura porque exige renúncias, rupturas, podas, disposição para perder e para morrer. É o dilema do cristão que vive no mundo sem ser do mundo. Viver segundo o evangelho e ser um evangelizador implica andar na contra-mão do mundo. Poucos têm essa coragem. É mais fácil e dá prazer entrar no esquema do mundo. É pena ver jovens cristãos, inclusive na Vida Religiosa, acomodados na zona de conforto do mundo, aderindo ao que é supérfluo e se entupindo de coisas na ilusão de prencher o vazio existencial. Tornam-se superficiais e perdem o sentido da vida.  A juventude devia ser criativa, dinâmica, crítica e lúcida para fazer a diferença no mundo sem sal e sem luz. O Papa Francisco chamou a atenção dos cristãos para “o risco de se tornarem mundanos”. É triste econtrar “cristãos diluídos, que se parecem com o vinho aguado, e já não se sabe se são cristãos ou mundanos”.

Anunciar o evangelho é nossa obrigação porque consagramos a nossa vida para isso. A graça de Deus nos conceda ser homens de fé profunda, de esperança alegre e inflamados de caridade para testemunhar que Jesus Cristo é o centro e o fundamento da nossa vida.

Pe. Fábio Bento da Costa, C.Ss.R.

Superior Provincial

O Sínodo nos leva ao Evangelho de Jesus e ao Jesus do Evangelho

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A misericórdia é a marca registrada dos Evangelhos. Engana-se quem a define a partir da mera piedade, a ponto de confundi-la com aquela comiseração vazia de sentido, que beira a dó diante do sofredor, inclusive por não lhe propor nenhum tipo de transformação. Ali, onde a dor impera, não somos juízes da moral nem reguladores da doutrina, mas tão somente servos da ação misericordiosa de Deus, que cura os feridos da vida com o bálsamo da compaixão e o remédio salutar da fé.

É necessária alma samaritana para compreendê-la, na verdade e na justiça que lhe são merecidas (cf. Lc 10,30-37). Distante de ações concretas, não há misericórdia que se sustente. Ela sempre solicita respeito, jamais requer, para si, qualquer tipo de pena. No lugar de condenar, a misericórdia acolhe e redime. Em vez de gerar sanções legalistas, ela abraça, perdoa e reconcilia. Só depois disso é que solicita a conversão do coração.

Pelo fato de Deus agir, única e exclusivamente, pelo princípio da misericórdia, com a comunidade eclesial não poderia ser diferente. A Igreja não é apenas agente, mas também alvo da misericórdia divina. É, ao mesmo tempo, remetente e destinatária da misericórdia. Assim atesta o Concílio Vaticano II (1962-1965), por meio da Constituição Dogmática Gaudium et Spes.

Nos tempos atuais, precisamos deixar ressoar aqueles dizeres sempre novos do texto conciliar, sobretudo, ao afirmar o vínculo irrestrito e profundo da Igreja com a história humana, entremeada por conquistas e adversidades: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.

Presidindo a Igreja, na caridade, o Papa Francisco tem colocado dois itinerários bastante específicos para a fé eclesial, a partir do testamento da misericórdia. O primeiro tem se efetivado neste mês de outubro, mediante a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos de 2014, cuja missão está em receber e reunir os testemunhos de todas as dioceses do mundo, bem como as recomendações para a vivência autêntica da fé entre as famílias. Já o segundo caminho se efetivará na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, na qual serão traçadas as linhas de ação pastoral voltadas para cada pessoa humana, inserida no contexto familiar.

Na primeira fase, aproximadamente 190 bispos prelados se fizeram presentes, com direito a voto. Além deles, também havia outros 60 colaboradores-especialistas e auditores-observadores, aptos a fomentarem as discussões nos círculos menores, sem a possibilidade de participação nas votações, por se configurarem como não prelados. Independente disso, o sentimento em comum era o de devoção à fé, todos empenhados no acompanhamento das famílias, lendo as suas dores, na perspectiva da misericórdia.

Após uma semana em torno de opiniões diversas, mas nem sempre antagônicas, foi elaborada uma síntese sinodal chamada de Relatio post disceptationem (Discursos depois dos debates), que desembocará em um documento final, num futuro vindouro. Além do aprofundamento teológico sobre o papel eclesial e social das famílias e das temáticas envolvendo a anticoncepção, o aborto, a nulidade matrimonial, as convivências e as uniões de fato, também foram discutidas as relações de casais homossexuais, responsáveis e estáveis, bem como a adoção de crianças daí decorrentes.

Do Sínodo Extraordinário de 2014 ao Ordinário de 2015, algumas questões permanecem em aberto, necessitando de um exame a fundo, a partir da colegialidade eclesial. Um deles é a comunhão aos divorciados e aos reesposados em contrariedade à disciplina canônica. Na condição de médicos da alma e não de censores da fé, os bispos ainda discutirão, à luz da misericórdia de Jesus, se a disciplina atual deverá ser mantida, enquanto regra geral ou se há possibilidade de uma abertura em situações bem precisas e individuais, ponderando cada caso, por meio de um itinerário de penitência e conversão, acompanhado pelo bispo diocesano.

No fim das contas, não se trata de assumir uma postura divorcista, na tentativa de dissolver um laço sacramental que é indissociável por sua constituição divina, mas, talvez, de conceder uma exceção ajuizada, sobretudo, quando o vínculo matrimonial fracassou, independendo diretamente de uma das partes, como é o caso do adultério persistido. Nesses casos pontuais, uma segunda união só seria possível à parte inocente, assim como já acontece nas Igrejas Católicas Ortodoxas, mas só depois de um apurado caminho que passa da confissão à absolvição.

De qualquer forma, é uma abordagem que não me compete aprofundar, inclusive por se tratar de uma matéria de debate, análise e reflexão dos pastores da Igreja. Só me cabe afirmar que nos tempos antigos, São Basílio de Cesaréia e, nos tempos modernos, Santo Afonso Maria de Ligório já denunciavam tanto o laxismo, quanto o rigorismo moral. Ambos sinalizavam para o discernimento misericordioso, dentro da mais primitiva tradição da Igreja.

Em contrapartida, outras questões já podem ser consideradas, em comum acordo entre os bispos, como, por exemplo, o reconhecimento de que a Igreja é uma mãe acolhedora, pronta a receber todos aqueles que desejam fazer a experiência da misericórdia divina, dentre eles os homossexuais. Para além da orientação dos afetos homoafetivos está a dignidade da pessoa humana e o respeito incondicional a ela em quaisquer circunstâncias. Há direitos que lhes devem ser garantidos, pois é uma questão de civilidade e cidadania. Isso não contradiz nem os equipara ao matrimônio cristão, mas lhes concede uma guarida permanente, respeitante e digna, enquanto filhos de Deus.

Mesmo que o Sínodo seja um elemento consultativo, pertencendo ao Papa a decisão final sobre cada tema abordado, fica a herança da colegialidade do Bispo de Roma com os demais bispos, no sentido de levar ao mundo o advento da misericórdia, que resplandece a face amorosa de Deus. Antes das necessárias leis e regras, vem sempre o discernimento dos espíritos, dentro de um contexto real.

Originada de Deus, sagrada e inviolável por natureza, a misericórdia se constitui como a célula vital da Igreja, destinada a servir a todas as famílias: reunidas no vínculo do amor, alicerçadas na fortaleza da fé e alimentadas pelo dom da esperança. Como se vê, não há evangelização que não passe, antes, pelo Evangelho da Família.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

Entre a política e a politicagem!

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O amor testemunhado pela pessoa de Jesus de Nazaré pode ser considerado como a maior manifestação política de todos os tempos. No entanto, faz bem esclarecer que Jesus não era nenhum partidário político e muito menos pertencente à nobreza aristocrática da época. Pelo contrário, viveu como pobre na condição e na opção. Foi no encontro com a pobreza que soube revelar a riqueza misericordiosa de Deus. Foi olhando para a situação de miséria do seu povo que conseguiu ser fiel ao projeto do Pai. Foi na ferida existencial do humano que Jesus apresentou-se como “servo dos servos de Deus” até as últimas consequências. Jesus desceu da cruz os crucificados pela “não-política” e se crucificou em seus lugares, demonstrando que a política de Deus é dar a vida e não tirá-la.

Consciente de sua missão, Jesus recrutou um grupo de pessoas e os introduziu no discipulado do Evangelho e na escola da fraternidade. Entre estes era chamado de “Mestre”. Por outro lado, também havia outros mestres da sociedade, intitulados de “doutores da lei” e “senhores da política”. Enquanto Jesus facilitava, ao falar a linguagem dos menos favorecidos, estes complicavam e tributavam a vida dos oprimidos. Sem generalizações, podemos afirmar que os antigos fariseus nos fazem lembrar os políticos, de ontem e de hoje, que não solucionam, problematizam; não respondem, perguntam e fazem inquérito; não governam, simplesmente manobram.

Aos seus partícipes Jesus não ofereceu altos cargos nem reservou pastas. O único serviço que lhes confiou foi o testemunho do lava-pés, no qual aquele que quisesse ser grande deveria ser o servo de todos. Essa foi a política de Jesus: o serviço livre e desinteressado como fidelidade ao Pai Eterno! Nas reuniões com os seus discípulos, não havia projetos de leis, sistemas burocráticos ou interesses partidários. Havia sim partilha mútua na missão de se constituírem como homens honestos pela verdade, sensatos pelas atitudes e solícitos políticos pela prática do bem.

Jesus não formou um partido político, pois sua política era o Evangelho, mas lapidou e conscientizou os seus discípulos a viverem na integridade, sem se deixarem corromper por nenhum sistema adulterado pela corrupção. Excetua-se somente Judas: aquele que traiu a política do Evangelho pelo dinheiro e acabou sendo condenado pela sua própria traição mercantil.

Por tudo o que fez e viveu Jesus torna-se o protótipo de todos os que almejam conduzir os caminhos da política na retidão e na veracidade. Atualmente, cabe aos genuínos candidatos a missão de dignificar a política, sabendo que ela é falseada todas as vezes que se converte no “partido do dinheiro” ou nos “dossiês da sujeira”. Neste sistema, a realidade passa a ter uma cotação, os projetos de lei são comprados, o mandato é penhorado pelos lobistas, a verdade é encoberta, o nepotismo é proliferado e os interesses do povo são substituídos em proveito próprio.

Deturpar a política é ferir a existência da sociedade, pois em sua gênese estão a honestidade e a ética como princípios fundamentais. Vale-nos, portanto, distinguir que a politicagem é negócio, a política é serviço. Politicagem é sinônimo de privilégios, política é antônimo de regalias pessoais. Politicagem é falsear as promessas eleitorais, a política é batalhar pela participação de todos na equidade pública de enriquecimento do município. Cabe-nos afirmar pelas urnas a eleição dos políticos e a destituição da politicagem, do mesmo modo que na colheita, onde se separa o trigo do joio.

Ademais, precisamos decretar o falecimento deste tipo de candidatura escondida sob o viés da mesquinhez, da falta de escrúpulos e da desonestidade, que erroneamente chamamos de política. A luta desenfreada para alcançar o poder é uma fraude da política, uma não-política. Matar o atual modo de fazê-la é anunciar o renascimento da verdadeira política. Nos tempos de outrora e, principalmente nos dias atuais, a política precisa deixar de ser uma profissão, um arrimo familiar, para transformar-se em uma legítima vocação, como nos diz Rubem Alves: “De todas as vocações, a política é a mais nobre […] De todas as profissões, a profissão política é a mais vil”.

Por fim, nos resta uma fresta de esperança. Que os candidatos sejam mais sérios e não utilizem de meios ilícitos para dividir a opinião da população! Que palavras soltas e sem autorização pessoal não se tornem meios desonestos para confundir a consciência dos eleitores! Que a tramoia do poder seja deixada de lado! Que o bem comum seja colocado como centro das atenções do poder público! Que ninguém aproveite de oportunidades sutis para se colocar como “bonzinho” usando a imagem dos que lutam pelo bem comum dos fiéis!

Vamos rezar pelos nossos candidatos. A tentação do poder que corrompe e não se traduz em serviço está na alma de todo ser que respira. Até Cristo foi tentado pelo Diabo! Como não seria com aqueles que estão diante dos oásis financeiros das oportunidades de se enriquecerem ou se elegerem facilmente?! Rezemos e não fiquemos calados diante daqueles que se esqueceram que a política não se constrói à custa de opiniões, mas, sobretudo, na prática do bem!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

Continuar a missão de Cristo

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Em agosto, a Igreja celebra as vocações. Por ocasião da memória de São João Maria Vianney (4 de agosto), o famoso “Cura d’Ars”, padroeiro dos párocos, também nos recordamos do dia do padre. É tempo de rezar por todos nós, sacerdotes, e refletir sobre o quanto é importante a missão do padre de acordo com o coração de Deus e não a partir dos próprios critérios ou de sentimentos pessoais.

A missão do sacerdote está inserida no mistério Divino e decorre, diretamente, dele. Assim, quanto mais mergulharmos na origem da vocação sacerdotal, mais encontramos o rosto do Pai, pois Ele é o fundamento que legitima uma verdadeira vocação. O Pai continua a peregrinar pelo mundo, tocando no interior de cada alma. Ele prossegue passando por nossas casas, nossas famílias, nossas escolas e a chamar os seus, para lhes conceder vida e plenitude. Por isso, é impossível falar de vocação sem mencionar a emoção da pertença, a característica da escolha e a eleição para um serviço tão importante como o sacerdócio. Por trás de cada vocação está a história do amor do Pai inserida na vida dos Seus filhos. Fomos convocados pelo Amor!

Muito mais do que pregar e confessar o povo, o sacerdote assume o apostolado do exemplo. Mesmo sendo frágil e humano, suas atitudes devem apontar para o Evangelho. Em seus gestos mais simples, o sacerdote convida a comunidade cristã a aderir seu pensamento, vontades sentimentos e toda a sua existência ao Evangelho de Jesus. É como se ele mesmo dissesse: “Querem conhecer o Mestre Jesus? Olhem para mim e vejam em minhas atitudes a face de Cristo!”

No coração do sacerdote está o chamado a ser ‘mestre da Palavra’, ‘ministro dos Sacramentos’ e ‘guia da Comunidade Cristã’. Não porque ele o quis ou evocou para si estes títulos. Pelo contrário, foi porque a Igreja assim o confiou. O sacerdócio não tem nada a ver com o exercício de uma profissão. Ser padre não é uma questão de aptidão pessoal. Trata-se, no fundo, de um carisma, confiado pelo Espírito Santo àqueles que Ele mesmo escolheu.

Junto à missão sacerdotal está a realidade do serviço, pois o sacerdote “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28). Sendo homem do serviço, cabe a nós, sacerdotes, animar os fracos; empregar esforços para uma vida, verdadeiramente, cristã nos fiéis; exortar os desanimados; edificar a Igreja com o próprio testemunho; consolar os abatidos; libertar os cativos da injustiça e, por fim, ir ao encontro de todos aqueles que necessitam da face de Deus, sempre com a consciência de que: “quem é posto à frente do povo deve ser o primeiro a dar-se conta de que é servo de todos. E não desdenhe de o ser, repito, não desdenhe de ser servo de todos, pois não desdenhou de se tornar nosso servo Aquele que é Senhor dos senhores” (Santo Agostinho).

Porém, a maturidade da fé já ensina que nenhuma vocação é um mar de rosas. Nunca nos esqueçamos dos espinhos. Muitas vezes carregados na própria carne, como dizia o apóstolo (Cf. II Cor 12,7). Da mesma forma como há aqueles que se deixam inflamar pelo amor do Pai, sendo conscientes do dom espiritual que carregam, também há uma pequena minoria que se deixa perder pelo caminho. Acabam por sucumbir à ideia de que a vocação sacerdotal é coisa do passado. Que engano, pois, as pessoas sempre terão necessidade do amor do Pai! “Deus vive, e precisa de homens que vivam para Ele e O levem aos outros. Sim, tem sentido tornar-se sacerdote: o mundo tem necessidade de sacerdotes, de pastores hoje, amanhã e sempre enquanto existir” (Bento XVI).

Em uma sociedade cada vez mais secularizada, busquemos a face do Pai e não deixemos de orar pelos sacerdotes. Antes de criticar, oremos! “No coração do sacerdote não está extinto o amor” (Paulo VI). Mas, ele o exerce continuando a missão de Cristo, na caridade incondicional. É este amor que lhe confere o sentido de responsabilidade primeira pelo povo de Deus. Com a oração dos fiéis e com o esforço pessoal, a personalidade do sacerdote é amadurecida. A partir desse momento, somos capazes de carregar esse precioso dom, em nossos frágeis vasos, amparados pela força do Pai! Prossigamos!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

Somos a família do Pai Eterno

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“Vede que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o Somos!” (1Jo 3,1). Pelo Batismo recebemos a graça de nos tornarmos filhos de Deus. Em Jesus Cristo, o Filho Unigênito, pela graça do Espírito Santo, o Pai Eterno assume a todos nós como filhos e nos dá a alegria de participarmos da sua vida divina. Que maravilha! Nosso destino é a eternidade. Que bênção! Somos todos irmãos, chamados à comunhão. Formamos, assim, a família do Pai Eterno. O mundo saberá que somos filhos através do nosso testemunho de irmãos que se amam mutuamente: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo13,35).

Jesus, o Filho, nos ensina a viver e agir como filhos: “Amai vossos inimigos, orai pelos que vos perseguem, perdoai sempre, sejam bons para com todos, porque agindo desse modo sereis filhos do vosso Pai que está nos céus” (cf. Mt 5,43-48). O outro, portanto, não pode ser visto como ameaça ou alguém para competir. O outro que vive ao nosso lado ou passa pelos nossos caminhos é nosso irmão. Toda e qualquer pessoa é a oportunidade que Deus nos concede para sermos exercitados na capacidade de fazer o bem e de amar.

O amor de Cristo nos congrega e faz de nós uma só família na Igreja. Professamos a mesma fé e recebemos o mesmo batismo para vivermos em comunidade. A comunidade é o lugar especial para viver, cultivar, renovar e celebrar o dom e a alegria de sermos a família do Pai Eterno. Na escuta da Palavra, no exercício da oração, na celebração dos sacramentos e pela prática da caridade é que podemos viver e crescer como família de Deus na terra para sermos, um dia, família de Deus no céu. A Mãe da Esperança nos livre de todo desespero e nos ajude a sermos profetas da esperança de um mundo melhor.

Pe. Fábio B. da Costa, C.Ss.R.
Provincial dos Redentoristas de Goiás

Família: Dom de Deus semeado no coração do mundo!

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Somos vocacionados à família, porque fomos criados à imagem e semelhança da família de Deus. A ternura incondicional do Pai, a salvação sem medidas do Filho e a santificação permanente do Espírito Santo compõe a Trindade de Pessoas: unas e iguais na essência, mútuas e amorosas na comunhão, envoltas e diferentes na identidade (Santo Agostinho, De Trinitate, Livro IX. 1.1).

A Trindade Santíssima não é fechada em si, muito menos solitária. Pelo contrário, Ela vem ao nosso encontro e, por repetidas vezes, convida-nos sempre à relação, mediante o testamento do amor que rege Suas linhas e entrelinhas. Nela somos devolvidos a nós mesmos, sobretudo, quando caminhamos perdidos e confusos na vida. Da Trindade viemos. Nela somos, existimos e nos movemos. Para Ela, haveremos de retornar quando nossa vida chegar ao fim e for acolhida na Ressurreição.

Ao se encarnar em nossa história, Deus também quis ser família. No seio de Nazaré encontrou lugar entre sua Mãe, a Virgem Maria e seu pai, o justo José. Também foi recebido por seus parentes mais próximos, como o eram: Isabel, Zacarias e João Batista (Lc 1,39-56). Criado em uma realidade agrária, ensinado na escola da carpintaria, Jesus aprendeu os valores do afeto e da pertença a uma família humana. Como se vê, não há História da Salvação que não passe, antes, pelo Evangelho da Família.

Além de ser uma instituição originada no coração do Pai Eterno, assumida pelo Filho e abençoada pelo Espírito, a família também é constituída pela própria necessidade da espécie humana, que desde o primeiro sopro de vida, não consegue se desenvolver sem o auxílio constante de outra pessoa. Para despertar a nossa tendência inata ao amadurecimento dependemos sempre dos cuidados acurados e ininterruptos, seja da maternidade, seja da paternidade.

A família inaugura o sentido da nossa existência em Deus. Nela somos acolhidos, sustentados e providos. É coabitando, entre cada familiar, que não nos sentimos abandonados, desapoiados, esquecidos ou, ainda, repudiados pelos mais variados sofrimentos que nos são impostos no cotidiano. Estar em família é uma forma concreta de viver a experiência do amparo. Ficar sem ela é uma angústia impensável, mas real em nosso amado Brasil.

Quantas crianças sofrem devido à ruptura do vínculo familiar, tornando-se inseguras afetivamente e instáveis emocionalmente. A aterrorizante experiência do abandono, a dor pela perda dos referenciais, a ausência de limites e a sistematização da violência doméstica têm se tornado uma ferida traumatizante. Causada na primeira infância, ela tem se estendido pela vida adulta, pelo fato de se instalar na privação, fazendo com que as pessoas se sintam sem ajuda no mundo.

A agressividade de certos jovens, principalmente, aqueles com padrão antissocial ou comportamento infrator, é um reflexo da profunda crise que perpassa o coração das famílias. Não se pode generalizar, mas é possível que a agressão também seja uma resposta, cuja razão está na incapacidade de elaborar a aterrorizante experiência do desamparo familiar.

Em muitos contextos, a agressividade funciona como uma defesa, diante de um conflito, originado no exato momento em que a pessoa se sentiu aniquilada, desprovida de esperança, perdendo a capacidade de confiar, de se integrar a alguém, desprotegida e não sustentada. Algo que costuma ocorrer, com certa frequência, quando a ausência familiar ultrapassou o limite do suportável. Distante da família, ficamos na companhia da solidão: ela amedronta a alma, esvaziando o significado de todo e qualquer tipo de cuidado, inclusive o paliativo.

Ciente do seu papel evangelizador, a Igreja não permanece alheia aos sofrimentos das famílias contemporâneas. Sua missão é servi-la como instituição querida por Deus e, ao mesmo tempo, fazê-la enxergar a identidade de comunhão que lhe compete na fé. Solícito às necessidades do tempo presente, o Papa Francisco anunciou a Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, para outubro de 2014.

Como medida consultativa e participativa foi enviado um questionário amplo a todas as Conferências Episcopais do mundo e, destas, às respectivas Dioceses. Agora, os secretários sinodais empenham-se, arduamente, em vista das incontáveis respostas, chegadas dos grandes centros e dos confins mais distantes do Vaticano, no intuito de compor uma radiografia das famílias, a servir de instrumento de trabalho, para os Bispos, durante o Sínodo.

Em sintonia com a Assembleia Sinodal, celebraremos o dom de ser família no coração de Deus. Durante a Festa de Trindade, renovaremos os nossos laços afetivos, nos abriremos à compreensão fraterna, sem deixar de lado o dom do perdão. Você que me lê, agora, pare um pouco e, diante do amor do Pai, procure verificar quais são as mágoas e os ressentimentos antigos que lhe impedem de reatar a convivência com um familiar. Às vezes, para se chegar ao perdão, é necessário vencer, antes, o orgulho. De fato, o perdão é um desmemoriado. Só é colocado em prática quando a vida deixa de ser adubada e regada com o rancor.

Rezar em família, amá-la e respeitá-la é a melhor ferramenta para uma sociedade sã e menos adoecida. Alguém que não foi provido, sustentado, manuseado no passado, dificilmente, terá condições de munir, suster e manejar no presente. É por isto que a Igreja cuida das famílias atuais, sem deixar de avistar as futuras gerações.

Por fim, fiquemos com o parecer de Santo Agostinho ao dizer que: “aquilo que é gerado é igual àquilo que o gera” (De Trinitate, Livro IX. 12. 16). Que gerados no amor do Pai Eterno tenhamos o coração recíproco para acolher o Mistério Divino e os caminhos que Ele utiliza para Si revelar a cada um de nós, por meio de nossas queridas famílias. Tanto aqueles que estão aqui em Trindade, quando os outros devotos que nos acompanham pelos meios de comunicação: sejam bem-vindos à Romaria 2014! A fé conta conosco para que, em nossas famílias, enriqueçamos a Igreja, sendo dom de Deus para o mundo!

Pe. Robson de Oliveira

Reitor do Santuário Basílica de Trindade

 

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