Maria: a mulher que nos humaniza

Comentários: 0

O seio maternal de Maria é o lugar de encontro do Divino com o humano. Neste movimento, sem simbiose, mas de profunda doação e reciprocidade, acontece a ‘Plenitude dos Tempos’. Maria é a testemunha histórica de que vale a pena entregar-se, total e absolutamente, nas mãos do Pai Eterno. Todo o seu ser tem raízes fincadas no céu. O ‘sim’ de Maria nos trouxe Deus. Sua vida silenciosa, em Nazaré, santifica o nosso itinerário cristão e redentorista no mundo. “Maria, a Mulher, [...], a Feminina, acolheu e foi feita mãe de Deus! Acolheu e foi feita esposa do Espírito. Acolheu e foi feita mãe dos Homens. Acolheu e foi feita esposa de José. Fez-se “sim” e acolhida em seu nome e no meu. Feminilidade e acolhida, sem pecado, isto é, sem restrições, a elevam, e, nela, nos elevam.” (Maria Thereza – Maite).

Pela Revelação Trinitária, sabemos que o nascimento de Jesus, a partir de uma mulher, “constitui o ponto culminante e definitivo da autorrevelação de Deus à humanidade” (São João Paulo II). Em Maria, resgatamos a nossa vocação e dignidade, dentro da Redenção, realizada pelo Pai, no Filho, por meio do Espírito Santo. Na imagem do Divino Pai Eterno, reverenciada por milhares de devotos, no Brasil e no mundo, Maria está logo abaixo, de forma central, sendo coroada pela Santíssima Trindade. Suas mãos estão postas para manifestar o caráter da pessoa orante, experimentada na fé e acostumada a encontrar-se com o sagrado de Deus: face a face! Sua roupa branca expressa a pureza imaculada de viver ‘no’ Pai e ‘para’ o Pai. O manto azul nos abre ao Mistério Divino que está além do celestial.

A presença de Maria é a certeza do lugar que todo homem e toda mulher ocupam no coração de Deus. Contemplá-la, na imagem, é o mesmo que descobrir a nossa origem divina, é encontrar o tesouro perdido, é conceder um rumo santo para histórias, outrora, desumanizadas pelo pecado. Abramo-nos sempre à Santíssima Trindade e façamos do ‘sim’ de Maria a eterna adesão daquilo que o Pai Eterno sonhou para nós!

 

Pe. Robson de Oliveira
Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás

Maria e o mês de maio

Comentários: 0

É maio. Mês dedicado especialmente à Maria. Nas devoções populares lembramos e homenageamos a Mãe de Jesus com rezas do terço, coroações, ladainhas, oferta de flores, cantos do ofício de Nossa Senhora…, enfim! Tanto na Igreja Católica Apostólica Romana quanto na Igreja Católica Ortodoxa Maria é muito amada, venerada, querida. Porém, a espiritualidade Mariana no mês de maio é forte apenas na Igreja do Ocidente.

Você sabe donde vem a tradição dessa devoção? “O mês de maio mariano é uma herança europeia, uma vez que, na Europa, maio é tempo de primavera, que no Brasil corresponde ao mês de outubro, igualmente dedicado a Nossa Senhora, por ser o mês do rosário. É celebrado em diversos países para homenagear o reflorescimento da natureza. É um mês de festas, de divertimentos, de poesia, que tem suas origens em tradições muito antigas. No mundo cristão, como tentativa de corrigir os excessos e abusos destas festas tradicionais e torná-las mais cristãs, a partir do século XIII, a figura de Maria começa a ser associada ao mês de maio” (Pe. Waldomiro).

No Brasil as devoções a Maria começaram junto com a conquista da “nova terra”, e com ela a evangelização trazida pelos jesuítas. Posteriormente, a devoção foi ganhando força com o passar dos anos até chegar ao que conhecemos hoje. Teve presença forte, sobretudo com o povo pobre, simples e oprimidos que, buscavam na Mãe de Jesus, a esperança, o conforto e a força necessária diante de tantos sofrimentos e maus tratos. As maiores datas dedicadas à Maria em nossa tradição católica, no mês de maio, são: a Festa de Nossa Senhora de Fátima, celebrada no dia 13; e a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, que acontece no dia 24.

Utilizando-me destes pressupostos quero falar sobre um assunto muito discutido, mas pouco compreendido: o culto à Maria. É preciso saber diferenciar cultos de adoração e culto de veneração. A palavra “culto”, vem de cultivar, que por sua vez, quer dizer, desenvolver, ser instruído, cultivado, relação de respeito e veneração. Cultiva-se algo especial, como por exemplo, o louvor a Deus. Cultiva-se o carinho e a devoção para com os santos e santas. Podemos então, cultivar nossa devoção à Maria sem, portanto, adorá-la. À Maria, nossa veneração por tudo o que ela foi e por tudo o que ela é. À Maria, nós devotamos, cultuamos o amor por ela. Não a adoramos, pois, nossa verdadeira adoração é somente a Deus, ao Divino Pai Eterno.

Vamos a uma realidade prática. Maria é venerada no mundo todo, recebendo mais de seiscentos títulos, ou seja, nomes atribuídos a ela. É a mesma Maria, a Mãe de Jesus. A Mãe da Igreja e Mãe nossa. No Brasil, o mais conhecido é o título de Nossa Senhora Aparecida, seguido por Nossa Senhora da Graças, da Abadia, do Perpétuo Socorro e tantos outros. Maria, por isso, é fonte de inspiração. Você já prestou atenção na quantidade de pessoas, homens e mulheres, que trazem em seu nome, o próprio nome de Maria? E quantas cidades, escolas, asilos, creches, seminários e igrejas? Isso é uma forma de prestar uma homenagem a ela. Isso é carinho, respeito por alguém especial para nós, cristãos católicos, crentes em Jesus de Nazaré.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 971, nos orienta quanto à forma correta de como devemos cultuar Nossa Senhora para não cairmos no perigo de passar do culto à mariolatria. Assim, diz o documento: “A piedade da Igreja para com a Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão”. A Santíssima Virgem “é legitimamente honrada com um culto especial pela Igreja. Com efeito, desde remotíssimos tempos, a bem-aventurada Virgem é venerada sob o título de ‘Mãe de Deus’, sob cuja proteção os fiéis se refugiam suplicantes em todos os seus perigos e necessidades. (…) Este culto (…), embora inteiramente singular, difere essencialmente do culto de adoração que se presta ao Verbo encanado e igualmente ao Pai e ao Espírito Santo, mas o favorece poderosamente”; este culto encontra sua expressão nas festas litúrgicas dedicadas à Mãe de Deus e na oração mariana, tal como o Santo Rosário, “resumo de todo o Evangelho”.

Do mesmo modo a “Marialis Cultus”, que é a Exortação Apostólica do Papa Paulo VI que utilizou parte da renovação litúrgica, decidida pelo Concílio Vaticano II, para explicar o lugar de Maria no ciclo geral e o sentido das festas, propriamente marianas: [...] promovam generosamente o culto, sobretudo o litúrgico, para com a Bem-Aventurada Virgem Maria; dêem grande valor às práticas e aos exercícios de piedade recomendados pelo magistério [...] (LG 67). Neste ensinamento, Paulo VI articula a questão da cultura e da enculturação do culto devido a Maria, como a Mulher que soube viver no seu contexto e inserir-se no mistério de Cristo, porque foi uma mulher que acreditou naquilo que o Senhor lhe disse.

Guiados por Maria, continuemos com os olhos fixos em Jesus Cristo, autor e consumador da fé! “Ajude-nos a companhia sempre próxima, cheia de compreensão e ternura, da Maria Santíssima. Que ela nos mostre o fruto bendito de seu ventre e nos ensine a responder como fez ela no mistério da anunciação e encarnação” (DA 553).

Pe. Edinisio Pereira
Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

Com o Ressuscitado: ressuscitemos!

Comentários: 0

Jesus nasce, vive, cresce, morre e ressuscita a partir da nossa humanidade para nos mostrar como é significante viver de Deus e para Deus. Na vida de Jesus o humano encontra o sentido para a vida ao se potencializar no amor, de forma plena e irrepetível.

Na pessoa de Jesus de Nazaré, em Seu ministério público e em Sua intimidade com o Pai, encontramos o âmago da ressurreição cristã! Acompanhada do sepulcro vazio, a morte na cruz pareceu esvaziar qualquer esperança futura. Imperava tão somente o medo da perseguição e o silêncio derradeiro. Contudo, diante da realidade que se colocava como fim, apresentou-se o começo da ação redentora da fé. Passados aqueles tenebrosos dias, a morte foi obrigada a “entregar os pontos”, por não possuir mais a força do término definitivo e sem sentido do próprio viver, da existência.

Da cessação da vida manifestou-se a magnitude da ressurreição, fazendo com que o testemunho das primeiras testemunhas chegasse até nós. “A este Jesus, Deus O ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas” (At 2,32). Entre Jesus e a pessoa humana não há uma troca de papéis ou uma inversão de valores, mas, sobretudo, uma entrega cotidiana de duas vidas, que se unem e se assumem em um único caminho rumo ao Coração do Pai Eterno! Cremos, não apenas pela marca da história ou pelo relato oral e da escrita, mas, sobretudo, pela eficácia redentora da palavra que nos foi transmitida.

Jesus não retorna a esta vida, porque após a Ressurreição, vive-a plenamente em Deus! Cristo vai além do próprio morrer, pelo fato de assumir a vida na inteireza que lhe cabia. Em nenhum momento permaneceu cativo ao poder da morte, pois a todo tempo esteve atado ao amor do Pai. Ele foi glorificado! E é por meio d’Ele que nós ultrapassamos as nossas mazelas e nos apropriamos do conteúdo originário da salvação e da ressurreição. “Para isso, com efeito, o Verbo se fez humano e o Filho de Deus se converteu em filho do homem: para que todo aquele que se unir ao Verbo de Deus e aceitar a adoção, converta-se em filho de Deus” (Santo Irineu).

Na qualidade de primeiros endereçados da ressurreição, precisamos viver alicerçados na experiência das antigas comunidades cristãs. Para sermos reconhecidos – enquanto homens da redenção – é necessário adentrar o tempo mediado pela fé, dobrando os joelhos no chão, a ponto de atingirmos a esfera do absoluto que está em Deus e nos pobres a quem desejamos e pretendemos, especialmente como missionários, fazer chegar nossa mensagem. Eis uma tarefa diária e forçosa.

Mirando no Ressuscitado, precisamos reconhecer que a ressurreição pela ressurreição, sem implicações na vida humana, não tem sentido. A mensagem de Jesus continua viva e atualizada no mundo a partir de nós. Sigamos adiante, no sentido de que a mensagem do Evangelho jamais seja esquecida. Não somos meros seguidores de Jesus, mas continuadores, por excelência, de Sua obra redentora, no mundo.

Deixemos, então, Deus ser Deus em nossa existência e permitamos que o nosso coração se funda no coração de Jesus, para que construamos uma história bela que depende exclusivamente de nós! “A fé no Ressuscitado nos impulsiona a ir ao encontro dos crucificados de hoje, nos colocar a seu lado, para partilhar com eles este sorriso, a certeza alegre que Deus está vivo no meio de nós, ressuscitando, libertando da morte e fazendo uma nova criação” (Instituto Humanitas Unisinos). Portanto, aceitemos o desafio de viver como ressuscitados e ajudemos nossos irmãos de convivência e de pastoral a trilhar este mesmo caminho. Cristo continua existindo no mundo em nós e nas nossas atitudes!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente
Fundador da Afipe

A salvação pela Cruz

Comentários: 0

Um momento forte da liturgia de nossa Igreja que se vive durante a Semana Santa é a Celebração da Cruz. Ela acontece às quinze horas da Sexta-feira da Paixão. No tempo de Jesus, a cruz era um terrível objeto de tortura no qual eram crucificados contraventores e malfeitores da sociedade. Um famoso instrumento de suplício e dor. Eis, então, a grande questão: como entender a morte de cruz de Jesus que passou por este mundo fazendo o bem e falando de amor e de paz? Como um objeto de horror e morte pôde se tornar em um grande sinal de graça e salvação?

Leonardo Boff, diz que “ao longo da história, a piedade cristã compreendeu a cruz de Jesus como sendo um sacrifício exigido pelo Pai e necessário para nossa salvação”. Para Boff “esta compreensão comum da piedade cristã, tem seu fundamento na Teologia de Santo Anselmo, e nos leva a ver Jesus paciente, resignado, conformado com o sofrimento e a morte. Mais do que isso, leva os cristãos a aceitarem e justificarem as situações de sofrimento e de morte ao longo da vida. Isso, nós sabemos, não é a intenção da fé cristã acerca da cruz de Jesus de Nazaré”.

Ao longo dos tempos, fomos assimilando também a ideia de que a cruz de Jesus é uma ordem explícita do Pai Eterno, a qual Ele aceitou como um cordeirinho levado para o matadouro. Sendo assim, Jesus teria nascido para morrer em nosso lugar. Nada disso. A morte de cruz de Jesus é fruto de Sua obediência irrevogável ao projeto do Pai Eterno em Sua vida. É resultado de Sua opção consciente e radical pelo Reino de Deus. Ele que “se fez obediente até a morte, à morte de cruz” (Fl 2,8).

Deste modo, a atitude de Cristo é a maior prova de amor e fidelidade que somente um ser totalmente humano e plenamente divino poderia dar. Sua obediência o fez resgatar a todos do poder da morte e do pecado. Do contrário, se diante da cruz Cristo tivesse abandonado sua missão, toda Sua vida e Seus ensinamentos teriam sido em vão. E, o plano de Deus para a humanidade mais uma vez haveria falhado, como no episódio do primeiro homem: Adão!

Os projetos de Deus ninguém pode calar. Ao decidir morrer por amor, Jesus reconciliou consigo todas as coisas “tanto as terrestres como as celestes, estabelecendo a paz pelo Seu sangue derramado na cruz” (Cl 1,20). Ao ser levantado da terra, Cristo atraiu todos a Ele (cf. Jo 12,32) ao perdoar “todas as nossas faltas, anulando o título de dívida que havia entre nós, deixando de lado as exigências legais e fazendo-o desaparecer pregando-o na cruz (Cl 2,14).

A morte de cruz de Jesus é também razão para o seu seguimento pleno e consciente: “se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Ou, em outra passagem, “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim” (Mt 10,38). Com Sua morte de cruz, Cristo nos libertou e nos fez participantes de Sua Encarnação, Vida, Paixão, Morte e Ressurreição. Seguir a Cristo é assumir na própria vida a vida que é Dele próprio. A vida que recebeu do Pai Eterno e comunicou a todos os que são Dele pelo Batismo.

Na Cruz está a vida. Através dela Jesus desceu à mansão triste dos mortos para resgatar aqueles que outrora haviam se desviado de Deus. No alto da Cruz, do lado esquerdo de Jesus, verteu sangue e água: brotou a Vida. Pela cruz, Cristo não só venceu a morte como superou o poder das trevas, do mal e do pecado. Nela, Cristo inaugurou um novo tempo e cumpriu a promessa de Deus à humanidade, na Ressurreição. Toda Sua confiança estava depositada nas mãos Daquele que podia resgatá-Lo e fazê-Lo sentar-se à Sua direita. Com este gesto de entrega, Cristo atraiu junto a si, pela promessa feita a Abraão, todos os filhos e filhas de Deus.

Vale ressaltar que a Cruz de Jesus não é um trunfo para nós cristãos. Ela é antes de tudo uma graça. Uma glória conforme nos diz São Paulo na carta aos Gálatas: “quanto a mim, que eu não me glorie a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio da qual o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo” (Gl 6,14).

Diante dessa realidade e verdade de fé, compreendemos que a Cruz é um sinal de Ressurreição. Uma semente de vida eterna. Quem olha para a Cruz de Cristo e tudo o que ela representa, deseja fazer de Cristo seu melhor amigo, seu companheiro, seu confidente. Estar sempre em Sua presença e unido, para estar unido ao Pai Eterno e Sua Mãe Maria Santíssima.

A cruz, por ela mesma, não diz nada. Sendo assim, podemos entender que a salvação de Deus que Cristo nos propõe não está no objeto no qual Ele foi morto. Mas sim, no cumprimento pleno à vontade Daquele que o enviou: o Pai Eterno. Desta forma, Cristo pede que façamos o mesmo que Ele fez. E, celebremos na vida o que cantamos na liturgia: “Quanto a nós devemos gloriar-nos da Cruz, de nosso Senhor Jesus Cristo. Que é nossa salvação, nossa vida. Nossa esperança de ressurreição. Pela qual fomos salvos e libertos”!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Basílica
do Divino Pai Eterno

À mesa com o Mestre: sobre o significado do banquete no Evangelho de Lucas

Comentários: 0

Um tema profundo, rico no seu conteúdo teológico e espiritual, nem sempre valorizado em nossa experiência religiosa. Antes de tudo, tomaremos como referência o Evangelho de Lucas. Vale ressaltar um pouco das características do autor desse Evangelho, trata-se de um autêntico evangelista que exercitou com maestria a sua habilidade como escritor, reformulando as fontes, escrita e oral, alcançando os efeitos teológicos desejados. Lucas escreve em primeira pessoa e se dirige diretamente a seus leitores, com objetivos claros: fazer uma investigação acurada de tudo desde o princípio e escrever de modo ordenado com a finalidade evangélica de verificar a solidez dos ensinamentos recebidos.

Quanto aos destinatários, é importante dizer que Lucas não escreveu a sua obra em uma biblioteca isolada. Por um lado, se dirige a uma comunidade cristã imersa no universo cultural do mundo greco-romano do primeiro século, d’outro lado, ele deixa espaço a uma comunidade em ambiente judaico, que possuía um bom conhecimento das Escrituras e da história do povo de Israel, basta ver a insistência lucana em citar a Escritura. Lucas procura construir uma ponte proporcionando ao mundo greco-romano compreender o ambiente judaico e ao mundo judaico compreender e acolher a comunidade no mundo greco-romano.

Dito isto, tornamos ao tema do banquete, “sentar-se à mesa”, que é abundante na Sagrada Escritura. Na obra lucana, este tema aparece ao menos 19 vezes, isto indica que o gesto de fazer um banquete ocupa uma função importante no programa narrativo teológico do Evangelho. Propomos aqui quatro dimensões que permitem uma visão de conjunto do conteúdo deste tema no Evangelho de Lucas:

1) Elemento de inclusão: Uma realidade fácil de ser constatada, e que era na contramão das convicções religiosas da sua época, e também uma tendência hodierna, é o fato de Jesus comer com os pecadores. É comum encontrar Jesus que toma a refeição com grupo dos marginalizados, seja de gênero, classe social, convicção religiosa, etnia: judeu e gentio (cf. Lc 5,29-30; 7,36-50; 9,10-17; 14,1; etc). A este aspecto poderíamos intitular de fraternidade inclusiva à mesa.

2) Exigência de um comportamento específico: Os banquetes com Jesus exigem um comportamento à mesa. Existem instruções (cf. Lc 14): onde sentar? “Não te ponhas no primeiro lugar”; quem convidar? “Chama pobres, estropiados, coxos, cegos”, isto é, aqueles que não podem restituir. Enfim o exercício da diaconia se torna um modelo normativo para uma vida de serviço.

3) Símbolo escatológico: as refeições com Jesus não são uma refeição qualquer. Trata-se de uma ocasião especial de eleição, perdão e bênção escatológica. Mesmo sublinhando a importância do banquete em dimensão horizontal da história, esta não exclui. Ao contrário, é sinal de uma dimensão vertical, escatológica: “Virão do oriente e do ocidente, norte e sul, e tomarão lugar à mesa do Reino de Deus” (Lc 13,29); pertencer ao Reino de Deus é como um convite ao banquete (cf. Lc 14,15-24); bem como o reconhecimento do Ressuscitado acontece por meio de uma refeição (cf. Lc 24,13-35).

4) Inversão de papéis: enfim, é comum encontrar nas refeições narradas no Evangelho de Lucas uma inversão de papéis: a mulher chorosa é erguida por Jesus enquanto o fariseu prepotente é severamente corrigido (Lc 7,36-50); os servos fiéis se sentarão à mesa e o patrão os servirá (Lc 12,37).
Ao concluir, podemos dizer que o gesto constantemente repetido por Jesus de sentar-se à mesa, tomar uma refeição, há uma função indispensável para ressaltar o serviço, a caridade, a fraternidade e a bênção escatológica.

Pe. João Paulo Santos, C.Ss.R.
Missionário Redentorista

Páscoa: Escola da Oração em Jesus!

Comentários: 0

A oração é uma visita ao coração de Deus! Ela nos faz gastar a vida pela fé na medida em que assumimos o encontro com Cristo vivo! Pela oração, nos tornamos capazes de adentrar o mistério de Deus, em Jesus de Nazaré. Antes de ser um ato externo, a oração é propriamente uma realidade interna. Trata-se de uma prática subjetiva que nos conduz àquela objetividade fundamentada no Evangelho. A primeira função da oração é converter nossa consciência e só depois evangelizar nossas atitudes. Desta forma, a palavra e o comportamento tornam-se inseparáveis: um se condiciona como prática do outro.

Pela oração assumimos o mandato de comunicar às pessoas o cenário do Eterno e a manifestação do Sagrado no tempo. Eis um caminho de silêncio e de busca incessante pela face do Divino que se apresenta na solidão acompanhada do humano. No itinerário pessoal, Deus é o companheiro fiel que nos anima no sofrimento e nos fortalece nas dificuldades cotidianas.

Para conhecer a essência do Reino de Deus é necessário orar. Para amorizar a vida e perdoar o passado é de suma importância: orar! Para compreender as Sagradas Escrituras é imprescindível o estudo, todavia conheci- mento sem oração não vale em nada. Só há entrega contínua à vontade de Deus pela oração! Em síntese, não existe Cristianismo sem um genuíno espírito que nos conduza à experiência com Deus na oração!

Teologicamente falando, poderíamos definir a oração como a prática de converter o “eu interior”. Uma experiência de “estar a sós” para que o Divino se torne humano e o humano se torne Divino, em um movimento contínuo da encarnação de um no outro, sem simbiose, mas na reciprocidade existencial de duas pessoas que se amam.

Nem tudo é oração e neste caminho há muitos equívocos. A oração não é norma, não é mesmice nas palavras, não é uniformidade de ritos, não é um mecanicismo legalista nem um reduto da Igreja, mas, sobretudo, uma experiência exclusiva com o sentido único da existência: DEUS! Orar é o nosso selo de qualidade. É o resgate da nossa cidadania divina e do nosso passaporte para o céu. É a linguagem da vida eterna!

Quando nos mantemos cativos à oração o Pai Eterno nos faz conhecer as mazelas da nossa alma! Desde então, passamos a nomear os aposentos do espírito até Deus e, por conseguinte, a mensagem Divina é impregnada ao coração.

Na essência da oração está a dedicação de oferecer-se a Deus sempre e em todo lugar. Viver uma vida de oblação! A oração é enfatizada continuamente como hálito da alma e experiência fundamental para o reconhecimento da necessidade que temos de Deus. Assim, o enfoque principal está na vivência do Evangelho que precisa ser gestado no interior da pessoa humana. Vivenciada interiormente a mensagem de Jesus torna-se manifestação de Deus no mundo.

Neste tempo, no qual celebraremos a ressurreição de Jesus, somos motivados a ressuscitar em nós tudo aquilo que foi morto pelo pecado. Isso só é possível orando! Diante do Pai Eterno precisamos ser espontâneos, sinceros e abertos. Não devemos ter medo e muito menos fugir Daquele que faz tudo pela nossa felicidade. Busquemos Deus e nos encontraremos. Banhados pelo amor também conheceremos nossas feridas. Machucados da alma só são curados com o bálsamo da oração.

A oração é o compêndio maior da fé, pois por ela somos capacitados ao exercício de uma vida transformada por Cristo e continuada no Evangelho cotidiano. Não nos esqueçamos que só existe qualidade de vida e a saúde para alma quando reconhecemos a necessidade de orar sempre! Uma feliz e santa Páscoa!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente Fundador da Afipe

Reconciliação ou Penitência

Comentários: 0

Uma das passagens bíblicas que me emocionam desde criança, e que hoje me chamam muito a atenção sobre o Sacramento da Reconciliação, é a parábola do Pai Misericordioso de Jesus. Aquela que comumente chamamos de parábola do filho pródigo (Lc 15,11-21).

Por que é tão difícil perdoar? Por que é tão difícil sentir-se perdoado(a)? Por que é tão difícil para nós assumirmos a atitude de filhos(as) arrependidos(as)? Por que é tão difícil experimentar o Deus misericordioso de Jesus de Nazaré? Não pretendo esgotar o assunto. Ele é muito extenso, complexo. Quero apenas oferecer pistas com o propósito de ajudar a quem tem dificuldade de receber o perdão necessário e dar o perdão devido, para uma vida longa, alegre e feliz.

Estamos vivendo o tempo da Quaresma. Ocasião oportuna para uma verdadeira conversão de vida. Para um bom retorno à Casa do Pai Eterno. Por isso, quero tratar, neste espaço especificamente, sobre o Sacramento da Reconciliação, que tem por finalidade e efeito alcançar a reconciliação com Deus. A Igreja Católica (Católica, porque Universal) sempre atenta aos passos e ensinamentos de Jesus, coerente com sua tradição e magistério, oportuniza a seus fiéis os Sacramentos “que são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina” (CIC §1131).

Para compreender esta problemática, precisamos recordar que somos herdeiros de uma sociedade patriarcal machista, onde o homem é apresentado como aquele que tem a última palavra. Por esse motivo, inúmeras pessoas têm dificuldade no relacionamento com o pai biológico. Relação que é muito facilmente transferida para Deus, em sua condição de Pai criador. E isso também faz parte da nossa tradição catequética: fui catequizado assim, e creio que você também – não quero aqui atirar pedras em minhas catequistas. Ou seja, aprendemos que o Pai Eterno é um Deus severo, castigador. Que está a contabilizar nossos erros e pecados para “descontar” no dia de nossa morte.

Mas quando voltamos o nosso olhar para a pessoa de Jesus de Nazaré, o Cristo Ressuscitado, vamos reconhecendo o rosto misericordioso do Pai Eterno. Não consta na literatura bíblica nenhuma passagem que narra Jesus deixando alguma pessoa sem resposta. Para todas Ele tem palavras que pacificam, convertem. Os textos nos mostram que havia um longo diálogo entre Jesus e quem o procura. Ele é paciente, escuta a todos. Neste diálogo, a pessoa apresenta a ele sua dor, sua necessidade. Neste diálogo a intenção de Jesus é clara: levar a pessoa a tomar consciência de si mesma, saber que precisa dar passos, caminhar, mudar, arrepender-se, converter-se. Somente depois dizer: “Levanta-te, pega tua cama e anda” (Mt 9,6).

O que é tomar consciência, segundo Jesus? Vejamos! Primeiro: todo ser humano é um ser espiritual por natureza. Ele crê em algo que alimenta, sustenta sua fé e dá sentido à sua vida. Segundo, todo ser humano é um ser afetivo por natureza. É a capacidade de amar a si mesmo, a Deus, as pessoas e o mundo. Como o contrário também é verdade. Ou seja, odiar a si, a Deus, as pessoas e o mundo. Terceiro, todo ser humano é um ser emocional desde o seu gene. Nos alegramos e nos entristecemos. Sorrimos e choramos. Esbravejamos ou deprimimos.

Quarto, todo ser humano é um ser sexual por natureza. Não me refiro diretamente ao ato sexual ou a órgão genital. Refiro-me, inicialmente à beleza interior. A beleza do sorriso alegre e espontâneo que nos faz sentir belos, bonitos, amados, queridos, desejados por Deus. A beleza que atrai, encanta, seduz. Que irradia amor livre, contagiante, envolvente. Quinto e último, todo ser humano é um ser social desde sua concepção. Um ser que relaciona-se consigo mesmo, com Deus, com as pessoas e com o mundo onde vive, trabalha, realiza. Assim somos nós. É esse conjunto de dimensões humanas que forma o todo, o belo e complexo que somos.

Essa rápida viagem pela psicologia humana foi para ajudar você a entender que tipo é o perdão que Jesus nos oferece. E, também que o perdão somente acontece quando estamos em perfeita harmonia conosco mesmo, com Deus, com as pessoas e com o mundo onde vivemos. Então, não é possível reconcilia- ção pela metade. Ou ela acontece por inteiro ou não acontece de jeito nenhum. Penso que agora você já tem condições de entender porque as vezes é tão difícil perdoar e sentir-se perdoado(a). É tão difícil sentir o perdão pleno de Deus em nós.

Vale a pena recordar que a graça de Deus que há em cada um de nós, é infinitamente maior que qualquer fraqueza que venhamos a ter. É esta mesma graça que nos dá forças para o exercício da humildade interior. O reconhecer que erramos, pecamos e queremos voltar. Olhando para o particular de nossa vida, feito uma viagem humilde pelo nosso interior vou me assumir, me redimir, me salvar. Sim, me salvar “porque o Deus que criou você sem você, não quer salvar você, sem você” (Santo Agostinho). Assim, tomo consciência de quem sou. Me torno melhor a cada dia. Trabalho em mim as minhas limitações e fragilidades. Reconheço e valorizo minhas qualidades e potencialidades.

Então, reconciliação é perdão de mim para comigo mesmo. É o estar em união íntima com Deus, com o mundo e com as pessoas. É o exercício da paz regado com muita oração, silêncio, meditação e leitura orante da Palavra de Deus. Compreendendo que o amor do Pai Eterno por nós é imensurável e que Ele nos ama do jeito que somos, voltamos a ser o filho pródigo abraçado pelo Pai misericordioso da parábola de Jesus!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

A virtude da caridade compreendida e vivida como serviço

Comentários: 0

A virtude da caridade – juntamente com as Virtudes da Fé e da Esperança – dispõe a todo o cristão a viver uma íntima relação com o Pai Eterno, a Santíssima Trindade, como origem, motivo e objeto.

A virtude da caridade fundamenta, anima e caracteriza o agir na vivência cristã. Ela é infundida por Deus na vida dos fiéis que a acolhem, e os torna capazes de agir como filhos de Deus na promessa de salva- ção onde todos são acolhidos e redimidos na graça da filiação divina.

Esta virtude acolhida pelo fiel que, infundida na alma humana, leva a pessoa a conhecer e a praticar o bem. Assim, a virtude da caridade, vivenciada pela pesso, infunde no seu próprio ser a graça santificante, tornando a pessoa capaz de ter uma íntima relação de amor (caridade) com o Divino Pai Eterno, a Trindade Santíssima de Amor. Pela prática da virtude da caridade se expressa o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a nós mesmos, por amor do Pai Eterno que nos amou primeiro.

Jesus, o Filho amado do Divino Pai Eterno, fez da caridade um novo mandamento. “Assim como o Pai me amou, também eu vos amei. Permanecei no meu amor.” (Jo 15,9) Jesus manifesta o mesmo amor que Ele recebeu do Pai Eterno e o dá aos seus discípulos e a todos os filhos e filhas do Divino Pai Eterno. Ele mesmo disse: “Amai- -vos uns aos outros como Eu vos amei”. (Jo 15,12). Jesus fez da caridade o mandamento novo, a plenitude da lei. Amando os seus, amou os “até o fim” (Jo 13,1).

No capítulo 13, da Primeira Carta aos Coríntios, o apóstolo Paulo exorta que, de    todas as virtudes, a maior delas é a caridade. Nisto, a caridade é a raiz de todas as virtudes e expressa a bondade suprema para com a própria pessoa que a vive, para com o seu semelhante, imagem e semelhança do Divino Pai Eterno, Ser Infinito de Amor (caridade).

São Paulo destacou neste capítulo um quadro incomparável da caridade: “A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (l Cor 13,4-7). A caridade é superior a todas as virtudes. É a primeira das virtudes teologais “Permanecem fé, esperança, caridade, estas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade” (1Cor 13,13).

Neste tempo da Quaresma, tempo favorável de graça e salvação. Procuremos através dos exercícios quaresmais, da ora- ção, do jejum e da esmola (partilha de vida) viver mais intimamente a Cristo Mestre e Servo que nos deixou o legado de amar e servir, rezando e refletindo com toda a Igreja do Brasil, fazendo acontecer de fato o lema da Campanha da Fraternidade deste ano, “Eu vim para servir.” (Mc 10,45)

Pe. Antonio Gomes
Missionário Redentoristas

Retribua o amor do Pai

Comentários: 0

O amor transforma corações e dá sentido à existência humana. Quando compreendemos o outro e o sentido de nossas vidas, nos tornamos mais sensíveis e nos humanizamos. Passamos a ir ao encontro de Deus, no serviço ao mais próximo, livre de interesses e obrigações, tendo como motivação principal o amor. Quando nos colocamos no lugar do nosso irmão, entendendo suas necessidades, encontramos o melhor caminho para nos tornarmos mais humanos e verdadeiramente filhos e filhas do Divino Pai Eterno.

No Senhor, contemplamos o fundamento do nosso ser. Ele nos ama, nos salva e nos cria no amor. Na sua essência divina, nos envolve por Sua bondade e misericórdia. Eis um Deus que não impõe condições para amar. E é esse amor misericordioso e incondicional, sem limites ou restrições, que nos prova que fomos criados para também amar o próximo. E, assim, em Deus, confirmamos a nossa identidade de irmãos e filhos, gerados no amor.

“Meu alimento é fazer a vontade Daquele que me enviou e realizar a Sua obra” (Jo 4,34). Essa é expressão de tudo que devemos buscar, na alegria de servir ao Pai e fazer Sua vontade, retribuindo e sendo instrumentos do Seu amor. Foi Ele quem nos amou primeiro e nos enviou seu Filho Jesus, para nos dar sua Palavra e nos ensinar o caminho da salvação.

Por causa de tanto amor é que devemos buscar amar nossos semelhantes e fazer o bem a todos da melhor maneira que pudermos: Caríssimos, se Deus assim nos amou, também nós nos devemos amar uns aos outros” (I Jo 4,11). Retribuir o amor do Pai é demonstrar gratidão por tudo que Ele tem feito por nós. A fé e as nossas boas ações nos dignificam como filhos do Pai e irmãos em Cristo.

Então, estamos sendo leais à Sua missão? Se quisermos ser fiéis ao Evangelho, devemos existir para as pessoas, conhecidas ou não, da mesma forma que Jesus existiu e por elas deu a vida. Alguns podem se perguntar: o que a gente ganha com isso? Contribuímos com amor, paz, tranquilidade e esperança, aprendendo também com esses valores ao retribuir aquilo que o Senhor fez por nós. Desta vida, só vamos levar o bem que tivermos realizado, o amor que demonstrarmos pelos outros e o Evangelho que nos esforçarmos por pregar e viver.

Assim, em uma das maneiras de fazer o bem, reforçamos nossa comunhão de amor, que abraça cada vez mais irmãos, por meio da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe). Através dessa família, devotos têm ajudado a colocar em prática os ensinamentos de Jesus e a levar a Palavra do Pai, com ações concretas a muitos corações. Para nós, fé e união são verdadeiros motivadores para continuarmos no propósito desta caminhada de doação e entrega a Deus.

Evangelizamos na oração, mas também através de gestos reais do dia a dia, permitindo a existência dos ensinamentos do Redentor em nossas atitudes. Corresponder às bênçãos que recebemos diariamente é fazer, mesmo que na pequena boa ação, seja ela qual for, o Evangelho acontecer em nosso meio, no mundo de hoje. Somos evangelizados pelo amor e devemos nos tornar evangelizadores e construtores das Obras Divinas.

Pe. Robson de Oliveira
Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás
Presidente Fundador da Afipe

É tudo uma questão de fundamento!

Comentários: 0

Em alguns, não em todos os cenários sociais, é possível constatar certo ar de superficialidade, às vezes, inserido em ambientes vazios e banais. Ali as pessoas são apresentadas de acordo com os interesses que regem um determinado grupo. Valem somente pelos atributos pessoais e financeiros que possuem. Outras são tratadas de modo dispensável, como se fossem objetos ou pior ainda, como coisas! Sem sentimentos, sem história, sem valor. Ao invés de serem reconhecidas como ‘eu’, passam a ser enfocadas como ‘isso’. O importante é o momento. Faz-se o que dá vontade a todo e qualquer custo. Para estes, os sonhos estão distantes e os projetos são somente para o futuro. Planejamento, metas e objetivos claros são coisas de pessoas retrógadas e caretas. Fundamentos para quê?

Nos demais contextos também há a possibilidade de encontrar não poucos indivíduos que possuem convicções firmes e coerentes. Não são absolutistas, mas seguros de si. Creem e buscam algo maior que eles. Não se encontram centrados em suas picuinhas pes- soais. Pelo contrário, são capazes de visitar suas consciências, para perceber os caminhos que não condizem com as suas escolhas. Há uma espécie de tratado firmado entre aquilo que acreditam e o que praticam. Estes são imbu- ídos por aspirações que indicam um norte para suas existências. Na verdade, há um fundamento que os orienta, norteia, elucida e os esclarece. Suas pretensões são alicerçadas sobre a rocha e não na areia (Cf. Mt 7,24-27).

Hoje se fala muito sobre liberdade. Nada mais justo! Mas, qual seria o fundamento desta tão defendida liberdade? Esquece-se que ela só é plena quando vincu- lada ao amor. Sem o movimento do amor, a liberdade se transfor- ma em egoísmo. Ao assumirmos a postura de egoístas nos tornamos como que buracos-negros: suga- mos a força das pessoas, a ponto de elas saírem mal de nossa pre- sença; absorvemos tudo a nossa volta e não fazemos a síntese de nada concreto; queremos tudo, única e exclusivamente, para nós; tornamo-nos infantis e esperne- amos todas as vezes que nossas vontades infantis não são atendi- das. Somos servidos, quando de- veríamos servir, falamos quando deveríamos nos calar e nos esvaziamos quando deveríamos pre- encher as lacunas de nossa existência.

Ah! Como seríamos mais re- solvidos se tomássemos consci- ência do fundamento que rege a nossa vida. Precisamos fazer, com frequência, a viagem ao interior de nossa alma, para descobrirmos o que tem sido depositado no altar do nosso coração. Ali será desvendado para quem temos prestado culto, oferecido incenso e adorado como senhor. É perigoso expressar o que vou escrever agora, mas a coerência me leva a redigir que: nem sempre é Deus que se encontra na essência de nossas ações. Ainda há muitos ídolos, em forma de vantagens, que precisam ser destronados e colocados à par- te, deixados de lado.

O mais agravante é quando nos fazemos ídolos de nós mesmos. Colocamo-nos em um pedestal e, a partir de então, nos conferimos o direito de ‘senhores da história’, até mesmo da história alheia. Os títulos, as condecorações, os prê- mios e as conquistas devem ser acolhidos e validados de acordo com o seu grau de importância. Porém não podem se tornar o fundamento de uma vida. Somos muito mais que isso!

Devemos sim ter a rédea de nossa existência nas mãos, mas sem nos esquecer d’Aquele em quem depositamos nossa espe- rança (Cf. Jr 14,22). Enganam-se aqueles que fundamentam sua es- perança no dinheiro, nas riquezas e em pessoas, cargos ou funções. Por mais segurança que possam nos conceder tais realidades não nos conferem plenitude, porque são passageiras. Por mais que alguns não reconheçam, temos fome e sede do que é eterno: te- mos necessidade Daquilo que não passa! Contudo, ainda possuímos a insistente teimosia em buscar outros fundamentos que não nos saciam, pelo contrário, só nos es- vaziam.

No tempo da Quaresma, tão propício para uma verdadeira conversão nas atitudes e reconci- liação com a Igreja, ferida, muitas vezes, pelos nossos pecados; faz bem orar com o desejo de revisar o fundamento que conduz nossa existência: “Dá-me, Pai, ser livre como teu Filho, Jesus, o Homem livre por excelência. Lendo os Evangelhos, respiro um clima de liberdade e confronto-me com um Homem livre, livre diante dos homens, diante das ideologias reinantes, dos grupos de pressão… Livre perante a sua vida e a sua morte. Onde encontrar a raiz dessa liberdade pura? Creio, Pai, que essa raiz és tu. Jesus foi livre porque te encontrou, acolheu o teu amor, sintonizou o seu que- rer com o teu querer, não teve ne- nhum ídolo. Ele é o caminho. Que eu possa segui-lo para ser livre e amar como ele amou” (José Antô- nio de Oliveira, SJ).

Que o dom da fé não nos dei- xe perder o foco de nossas ações, exercidas pelo amor, em prol da esperança. Tenhamos a clareza de nossas escolhas fundamentais e não perderemos nossa liberdade. Saibamos que mais vale ser ínte- gro, do que ser vendido por reali- dades vãs, que só nos fazem sofrer e perder o sentido da vida.

Na Quaresma, ‘não pratique- mos a oração, a esmola e o jejum por obrigação’, mas, sobretudo, para descobrirmos quem tem fun- damentado nossa vida: o Deus de Jesus, chamado ‘Pai Eterno’ ou outras realidades, pessoas e situ- ações que colocamos como divin- dades? Uma abençoada Quaresma a todos, baseada em um sincero retorno ao Grande Fundamento de nossa fé!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente Fundador da Afipe

Páginas: 1 2 3 20 Próxima Página »

Missas

De segunda a sexta

Missas: 7h e 19h30

Sábado

Missas: 7h, 10h e 17h30

Domingo

Missas: 5h45, 8h, 10h, 15h e 17h30

Rede Vida

Segunda, terça, quinta e sexta: 7h Quarta: 9h

Sábado: 7h e 17h30

Domingo: 17h30

TV Anhanguera

Domingo: 5h30

PUC TV

Sábado e domingo: 17h30

TBC

Domingo: 8h

Rede Pai Eterno

Missas Segunda, quinta e sexta: 7h
Quarta: 9h
Sábado: 7h e 17h30
Domingo: 5h45, 8h e 17h30

Novena dos Filhos do Pai Eterno Todos os dias: 4h, 12h e 22h Novena do Perpétuo Socorro Todos os dias: 2h

Rádio Difusora Goiânia

Missas Domingo: 8h Novena dos Filhos do Pai Eterno Todos os dias: 13h