Perspectivas da Arquidiocese de Goiânia para 2017

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Depois da Sua paixão, morte e ressurreição e antes de ascender aos céus, Jesus disse aos Apóstolos: “Não cabe a vós saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a sua autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8). A Igreja primitiva, que ainda era uma pequena comunidade constituída em torno dos Doze, era então enviada, por todo orbe conhecido, a dar testemunho do que viu e ouviu (cf. 1Jo 1,1-4), anunciando Jesus Cristo a fim de que o verdadeiro Reino de Deus fosse construído.

Os caminhos da providência divina fizeram com que a Igreja, conduzida pelo Espírito do Senhor, de fato chegasse até os confins da Terra e, ao longo desses quase dois mil anos, pouco a pouco, fosse testemunhando Jesus, fazendo aumentar o Seu rebanho e pastoreando-o em Seu nome. Nós, que somos a Igreja particular de Goiânia, nos reconhecemos destinatários desse mesmo envio, por isso, nos vemos interpelados a continuar, em 2017, nosso caminho de testemunho de Jesus e de cuidado do Seu rebanho.

A chegada providencial de Dom Moacir como bispo auxiliar, além de nos encher de alegria, nos dá a possibilidade de aprofundar e expandir a cura pastoral direta do Bispo às diversas comunidades e necessidades de nossa Arquidiocese. Os desafios são inúmeros e requerem uma presença qualificada do Pastor a quem foi confiada esta porção do rebanho do Senhor. Assim, o bispo diocesano, com seus auxiliares, torna presente o cuidado de Jesus por Sua Igreja e manifesta o amor do Pai pela humanidade.

Uma vez que os bispos precisam da colaboração dos sacerdotes no exercício do seu ministério episcopal de pastor, desejamos continuar a incrementar o trabalho da Pastoral Vocacional em vista do crescimento do número e da santidade das vocações ao ministério ordenado. A ordenação de três novos padres em dezembro de 2016 e, em fevereiro de 2017, de três novos diáconos, traz alento e esperança. Desejamos seguir adiante preparando com cuidado os nossos seminaristas, investindo na qualidade dos nossos seminários: o Centro Vocacional São João Paulo II, o Seminário Propedêutico Santa Cruz e o Seminário Interdiocesano São João Maria Vianney. Com alegria, neste ano de 2017, inauguraremos o novo Centro Vocacional, nas dependências do Centro Pastoral Dom Fernando.

Como as cidades que fazem parte de nossa Igreja particular crescem em ritmo acelerado, reconhecemos a necessidade de expandir a presença e a Missão Evangelizadora da Igreja por meio da criação de novas comunidades que possam atender as necessidades espirituais dos nossos irmãos residentes nesses novos locais. Como a Igreja primitiva, sentimo-nos enviados a testemunhar Jesus até os confins e, por isso, desejamos estar presentes, por todos os meios e pessoas possíveis, na vida quotidiana das famílias e pessoas a fim de oferecer a elas a possibilidade de conhecerem o Senhor e viverem a Sua Palavra.

A vida de uma Igreja particular se dá na história e, por isso, respeita tempos e processos dentro dos quais o passado serve de fundamento, e o presente, como espaço do exercício da responsabilidade que nos foi confiada pelo Senhor em vista da futura instauração definitiva do Seu Reino. Essas perspectivas salientadas e tantas outras não enumeradas são o horizonte que se abre diante de nós no ano de 2017, que queremos viver como mais um passo desse caminho com Jesus e no serviço aos irmãos, acolhendo tudo o que já foi feito e nos lançando para o futuro. Com São Paulo queremos dizer: “Lanço-me em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber no Cristo Jesus. (…) No entanto, qualquer que seja o ponto a que tenhamos chegado, continuemos na mesma direção” (Fl 3,14.16).

 Dom Washington Cruz, CP

Arcebispo Metropolitano de Goiânia

 

Ano Novo, Vida Nova. Certo?

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A vida não é feita de intervalos e interrupções. Ela é uma sucessão de acontecimentos interligados entre si que não se anulam, mas que se fundem, se completam. Olhar o passado de nossa história com amor e gratidão nos faz sorrir no presente e enxergar o futuro de nossa existência com mais alegria e esperança. Ano Novo, vida nova. Certo? Bem, este é o sonho de cada um de nós!

A vida neste mundo é uma travessia arriscada, perigosa. No entanto, ela é uma ponte segura quando construída sob os alicerces da fé e sustentada pelos pilares do amor ao Pai Eterno acima de todas as coisas e também ao próximo como a si mesmo. Vida que pouco dela sabemos. Mas, que a aguardamos confiantes nas promessas que Cristo fez para nós, pois quem possui a vida eterna dentro de si já passou da morte à vida (cf. Jo 5,24). O certo é que o hoje de nossa vida terrena determina a vida que virá: a salvação ou a perdição eterna.

Ainda que em Cristo a vida neste mundo seja uma ponte segura que nos garanta à vida Eterna, ela é caminho que não pode ser percorrido sozinho. Para isso é preciso contar com a ajuda de outras pessoas que nos auxiliem na travessia impedindo assim, que sejamos assaltados, roubados ou sequestrados de nós mesmos e de nossos próprios sonhos. Contar com pessoas certas. Não com pessoas perfeitas, ideais, pois elas existem somente no mundo das ideias e das fábulas infantis. A idealização vive da espera e faz sofrer. A certeza vive da realidade e faz ser feliz.

No processo de construção do Ano Novo que queremos para nós mesmos e para as pessoas com as quais convivemos, ou aquelas a quem o Pai Eterno colocou sob nossos cuidados, é preciso contar também com amizades acertadas. Amizades acertadas nos ajudam a corrigir e superar erros, limites e imperfeições. Amizades acertadas não nos julgam nem nos condenam, pois sabem que elas também são portadoras de frágeis realidades humanas. Pe. Fábio de Melo diz que “quando encontramos alguém que verdadeiramente está desbravando seu universo de possibilidades e limites, de alguma forma nos sentimos motivados a fazer o mesmo”.

Fazer escolhas acertadas não é fácil. Acertar nas escolhas feitas também não é. Diante dessa premissa, insisto mais uma vez, citando Fernando Pessoa: “Enquanto não atravessarmos a solidão do nosso próprio eu, continuaremos a nos buscar em outra metade. Antes, para viver a dois é preciso ser um”. O nós existe a partir da construção do eu que há em mim, e do tu que há em você. Assim como somos. Querer que os outros sejam aquilo que gostaríamos que fossem é um equívoco grave. Isso não é humano, justo, honesto, nem cristão.

Refugiar-se atrás de si mesmo e das próprias fraquezas é não desejar ir além. Para não correr o risco de cair na mesmice de sempre é preciso dispor-se a sair de um estado de vida para alcançar outro. Não existe receita para a felicidade. No entanto, não deixe de sonhar, de acreditar. E, evite criar expectativas demais. Faça apenas planos e projetos possíveis de serem alcançados.

Ao encerrar um ano civil há sempre no coração de cada um de nós o desejo de que tudo se torne melhor no ano vindouro. O que deu certo e foi bom, que continue. Aquilo que deu errado e não foi bom, que seja melhorado. Em todo caso, as expectativas são sempre as melhores possíveis. Amor que se multiplica é amor que Ressuscita sempre. Quer experimentar tudo novo em 2017 e ver tudo se multiplicar em sua vida? Siga os exemplos de Cristo. Esvazie-se de si, faça uma faxina interior, renove-se espiritualmente e busque experimentar Deus em todas as coisas por ele criadas. Busque viajar, sair mais de si em direção ao outro. Busque mais o desejo que o prazer, pois o desejo é eterno e o prazer é passageiro. Por fim, ame mais, pois “é na afetividade e no sentimento que Deus pode tocar o ser humano, e é com a afetividade e o sofrimento que experimentamos Deus” (Anselm Grün).

Quer acertar no plantio em 2017 e colher frutos sadio nos anos futuros? Plante sementes boas no presente. Feliz, Ano Novo!

Pe. Edinisio Pereira

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

 

 

 

O Evangelho do Amor

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No primeiro dia do ano, celebramos a Mãe de Deus, Maria, nossa Mãezinha do Céu, ela que acolheu plenamente os mistérios da redenção no seu próprio ventre, na sua mente e no seu coração. Maria foi o receptáculo da graça de Deus, o sacrário vivo do próprio Senhor, custódia da salvação da humanidade. Por isso, a Igreja começa o ano bendizendo, louvando e agradecendo ao Pai Eterno pela Mãe de Jesus, que é para nós um exemplo de vida, de como devemos caminhar e de como devemos ser, em nossa vida cristã.

Maria via e ouvia todas as coisas e, em silêncio, guardava tudo em seu coração e meditava. Maria, Mãe de sabedoria, meditava os mistérios de Deus em cada um dos tantos fatos que aconteceram na vida de Jesus e em sua vida. Devemos louvar e agradecer a Deus pelas infinitas graças que Ele sempre derrama sobre nós porque Ele é o nosso Pai Eterno. E devemos agradecer também por Ele ter nos dado Maria, por nos ter dado a Mãe do Redentor para que nós sejamos filhos dela e aprendamos a viver como ela viveu: uma vida de fé, de entrega, com uma opção radical de servir a Deus acima de qualquer coisa, colocando-O sempre em primeiro lugar em nossa vida.

Esta foi a missão de Maria, conforme ela mesma proclamou em seu cântico em Lucas (1,46) – “Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador”. E deve ser também a missão de todo cristão. Se colocar à disposição do Pai, levar o Seu amor ao mundo inteiro. Por meio de Maria, tudo se torna mais fácil. Ela nos mostra o caminho certo que nos leva a Jesus e nos mostra que nunca estamos sozinhos nesta missão. Só precisamos abrir o nosso coração, pois fomos batizados e recebemos o Espírito Santo, que foi enviado a nós ser a presença de Deus em nós e, através de nós, onde quer que nós estejamos.

O Senhor espera que nós realmente vivamos de acordo com a Sua vontade e que experimentemos profundamente o Seu amor, permitindo que outras pessoas também façam o mesmo, por meio de nós. Assim como Nossa Senhora, que recebeu o Espírito Santo e deixou o Pai Eterno agir em sua vida, nós também recebemos a marca do Espírito Santo em nós. E, por meio desse Espírito, somos canal do amor, da graça e da benção de Deus.

Com essa certeza, seguindo os exemplos de nossa Mãezinha do Céu, temos o compromisso de continuar a missão de Cristo nesta vida e neste mundo, mesmo que as pessoas não O queiram e não O aceitem. Mesmo que os corações sejam duros e resistentes em não querer mudar de vida e de pensamento. Nós somos chamados a evangelizá-las usando nossas capacidades, nosso modo de ser, de falar, de ensinar e de dar exemplos.

Quando Jesus diz “Ide pelo mundo e pregai o Evangelho” (Mc 16,15), Ele quer que nós entremos na vida, no mundo das pessoas e mostremos a elas o Seu amor e graça e tudo aquilo que nós conhecemos e experimentamos. Maria, assim que soube da concepção divina de Cristo, saiu em missão, para levar Jesus a sua prima Isabel, que a reconheceu como bendita entre as mulheres, pois era bendito o fruto que carregavam em seu ventre (cf. Lc 1,42).

Para cumprir a missão que o Senhor deu a nós, devemos confiar Nele. Não podemos confiar somente em nossa própria força, condição e inteligência. Confiemos, sim, na graça de Deus que age no bom coração. Se nós seguíssemos nesta missão, por nós mesmos, não faríamos nada ou quase nada. Se vivêssemos somente pelas nossas capacidades, confiando em nosso mérito, faríamos pouco neste mundo. Mas, se a graça de Deus nos acompanha, Sua obra acontece de maneira magnífica. Pessoas são restauradas, corações são convertidos, vidas são mudadas. Tudo isso, porque eu me faço instrumento, me abandono nos braços do Pai Eterno e me coloco à disposição para que Sua vontade seja realizada plenamente em minha vida.

Ter o coração bom, colocar-se à disposição do Pai e se esforçar para serví-lo piamente; esse é o primeiro passo para que a graça de Deus opere em seu coração, em sua vida, em seu jeito de ser. Dessa forma, você se tornará a presença viva do Senhor na vida do seu irmão, na sua casa, no seu trabalho e onde quer que você passe. Em você, as pessoas vão sentir e reconhecer a presença e a força de Jesus.

Ouçamos a voz de Jesus, que não está falando apenas ao grupo dos Doze Apóstolos, mas sim para todos aqueles que Nele acreditam e que sabem que somente por meio Dele é possível alcançar a salvação. Neste novo ano, Deus nos dá uma nova oportunidade para que possamos assumir verdadeiramente a missão de Jesus em nossas vidas. Façamos como a Virgem Santíssima, a Mãe de Deus, abrindo-nos à vontade do Pai e vivendo a esperança de que este ano será ainda melhor.

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Afipe

A encarnação do Amor

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Às vezes, me pego pensando em como seria se Jesus voltasse hoje. Será que nós estaríamos preparados para receber Cristo em nossa casa, em nossa vida? Será que o nosso coração estaria preparado para acolher o Messias? Esse pensamento me veio à mente ao perceber que estamos nos aproximando do Natal, quando celebramos a vinda de Jesus – “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) – e, em vários locais e situações, é possível observar que o verdadeiro sentido desta comemoração está distorcido.

O Natal é uma das festas mais importantes do calendário litúrgico. Neste período, nós, que somos filhos amados do Pai Eterno, recebemos Dele o chamado para que preparemos o nosso coração, a nossa vida, para a chegada de Seu Filho amado. É claro que é uma festa simbólica, pois Jesus nasceu há mais de dois mil anos, segundo o calendário civil. Mas, precisamos sim relembrar disso ano após ano, pois, para nós, cristãos, é momento de refletir sobre como é necessário abrir o nosso coração para receber Cristo em nossas vidas.

Por isso, esse período não pode se resumir ao consumismo desenfreado, em que as pessoas só pensam em comprar presentes, fazer uma grande festa, pratos especiais, roupas novas, decoração natalina, árvore repleta de presentes. Tudo isso é bonito, mas não devemos gastar toda nossa energia com esses elementos, porque as coisas materiais são vãs. Nada disso faz sentido, quando as pessoas, especialmente, as famílias, não vivem o verdadeiro amor.

De nada adianta ter tudo isso e estar brigado com o seu irmão, com raiva do seu primo, em pé de guerra com seus pais. Não é isso que o Pai Eterno quer de nós. Podemos, sim, enfeitar a nossa casa, para que ela fique bonita e com clima festivo. Mas, não podemos colocar nossa atenção nisso e deixar o nosso coração amargurado, cheio de rancor e vivendo em meio à discórdia.

Nesse contexto, as pessoas estão cada vez mais divididas entre o Evangelho da Fé e o evangelho do mercado, entre o belo-supérfluo dos presentes e o singelo-necessário do presépio. Na noite de Natal, vemos coros, com muito entusiasmo, entoando o som do ‘Jingle Bells’, mas a verdade é que as pessoas se esquecem do motivo que a torna uma verdadeira e plena ‘Noite Feliz’!

É preciso viver a verdadeira essência do Natal, que está em reconhecer a grandeza de um Deus que é Pai e que, por amor a nós, se fez carne, habitou entre nós, de maneira simples, humilde e singela. Veio como criança, pura, ingênua, precisando dos cuidados dos seus pais para que crescesse e se desenvolvesse. E é essa mesma criança que agora está pedindo, desejando, nascer em nossos corações. Por isso, devemos amar, cuidar e nos dedicar a acolher essa criança, que é o próprio Cristo, com muito amor, para que nossa casa seja abençoada e nossa vida seja restaurada.

O Menino Deus nasceu para todos e aquele que deposita a sua fé e esperança no Natal, de forma plena, é capaz de vivenciar esse momento de Amor, não somente nesse período natalino, mas, em todos os dias de sua vida. Jesus é simples e cheio de amor. Ele não quer algo extraordinário de nós, quer apenas que nós possamos dar seguimentos à Sua missão, seguindo os Seus ensinamentos e fazendo valer a Sua vinda gloriosa a este mundo.

E a forma de colocar esse amor em prática é mudando as nossas atitudes do dia a dia: evitando falar mal dos outros; aprendendo a utilizar o silêncio para não criar situações de desconforto e não magoar os nossos irmãos; sendo gentil com as pessoas à nossa volta, em casa, no trabalho e em todos os lugares onde que estiver; praticando boas ações. Enfim… existem inúmeras ações que podemos realizar para garantir que o Reino de Deus aconteça aqui na Terra. E é com fé e humildade que somos capazes de deixar que o Espírito Santo nos mostre o caminho certo a seguir.

Lembremo-nos de que somos iluminados pela vinda de Cristo Jesus: “Para os que habitavam na terra da escuridão uma luz começou a brilhar” (Is 9,1). Cristo feito homem esvaziou-se de Si mesmo, exceto de Sua condição Divina, para partilhar de nossas dores e pobreza. Conheceu na própria pele as feridas do sofrimento e da extrema pobreza, pois não tinha “onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).

Sigamos o exemplo de Jesus, façamos deste tempo, um momento oportuno para revisitarmos a nossa consagração, tentando descobrir aquilo que tem nos distanciado do anúncio do Reino de Deus, tão defendido por Jesus. Não deixemos que o Menino Deus fique ao relento de nossa vida consagrada. Façamos o possível e o impossível para que Ele possa ser generosamente acolhido na manjedoura de nosso coração.

Bom Tempo do Advento a todos e um Natal cheio de luzes e ações de graças!

Pe. Robson de Oliveira

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e presidente-fundador da Afipe

Natal: a noite que nos ilumina

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Uma noite deu início a uma nova história. Era uma noite fria. O tempo previsto, completado. Maria estava prestes a dar a luz. As portas da cidade, fechadas. Não havia lugar dentro de casa. Maria e José encontraram então, um estábulo. E, ali nasceu o Sol da Justiça, que chegou trazendo ao mundo a Salvação para toda a humanidade.

Depois de tanto esperar, o Eterno chegou. O véu que separava o Antigo do Novo, Nele se rompeu. A toda criatura, o Criador redimiu. O silêncio que rondava o universo foi quebrado. A Boa Notícia, anunciada. Glórias, cantadas. Ao som de uma valsa celestial, a terra inteira dançou. Deus Menino chorou. O mundo inteiro sorriu. Os dois, de alegria.

Na noite venturosa que nasceu o Salvador, a esperança não se decepcionou. Contou com José. E, com Maria caminhou. Naquela noite, Deus permitiu-se ser revelado, conhecido, amado em seu Filho Jesus. Aquela noite escura tornou-se a noite mais iluminada de todas as noites. A promessa de Deus à humanidade, o fruto Redentor gerado do desejo profundo do seu coração, tornou-se realidade em Belém. Assim, “muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, Ele nos falou por meio de seu Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também Ele criou o universo” (Hb 1,1-2).

Aquela noite foi o encontro entre Deus e o coração de quem Nele crê: “Numa noite escura, com anseios de amor toda inflamada, ó feliz ventura!, saí, nem fui notada, estando já minha casa adormecida. Na noite afortunada, em segredo, ninguém me via, eu não via nada, sem outra luz e guia senão a que no coração ardia. Esta me guiava, mais clara que a luz do meio dia, para onde me esperava quem eu bem conhecia e onde nenhum outro entrevia. Noite que me guiaste! Ó noite mais amável que a aurora, ó noite em que juntaste o Amado com a amada, a amada no Amado transformada!” (São João da Cruz).

Noite do silêncio gemido de uma jovem Mãe. Noite aflita do coração de um longevo Pai. Noite do choro radiante de uma Criança que ecoa pela primeira vez, e de uma vez por todas, e para sempre no Universo. Esta foi uma noite que iluminou corações e inspirou eternas canções…

Até aquela noite tudo parecia morto, sem vida, sem esperança. O povo vivia do profetismo, das promessas e das esperas pelo tempo de Deus. Ao raiar o Eterno Sol nascido daquela noite, tudo ganha vida e sentido novo. Então, naquela noite os ossos ressequidos aproximaram-se uns dos outros. Os nervos foram cobertos de carne e a pele recoberta. Dos quatro cantos do universo veio o Espírito de Deus e tudo reviveu (cf. Ez 37,7-8). Assim , esta foi a noite “da humildade do amor do Deus criador que não hesitou em se autolimitar para dar espaço à criatura fazendo-a livre, diante de si” (Forte)

Por causa desta noite tudo mudou. Quando as coisas parecerem incertas, os dias chuvosos, as noites escuras e as madrugadas frias, lembrem-se desta noite: “Faz escuro, já nem tanto. Faz escuro, mas eu canto porque o amanhã vai chegar” (Mello). A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13,11-13). E, em perfeita harmonia, como o coro celeste daquela noite cantemos: “Fica conosco, Senhor! É tarde e a noite já vem! Fica conosco Senhor Somos teus seguidores também” (Pe. João Carlos).

Naquela noite, então chegou o Salvador, o Messias e Senhor. Salvador, porque traz libertação. Messias, porque traz o Espírito de Deus. Senhor, porque vence todos os obstáculos conduzindo a humanidade toda para dentro de uma nova história. Naquela mesma noite, nasceu um Deus Menino que cresceu, tornou-se grande. E, hoje bate à porta do nosso coração. Quem ouvir sua voz e a Ele a porta abrir, Ele entrará. E, juntos farão refeição (cf. Ap 3,20)!

Pe. Edinisio Pereira, Cssr

CONFUSÃO, MAS ESPERANÇA

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O cristão – aliás, toda pessoa – deveria ser esclarecido, consciente, responsável e decidido. Não alienado. Isso, para que seja capaz de assumir, livremente, sua missão neste mundo. – Estamos vivendo tempos difíceis, confusos. Difíceis e confusos, não só na política, e na economia, mas, principalmente na fé e na religião.

Há fortes sinais dos tempos: secularismo, laicismo, hedonismo, ganância, relativismo. – Secularismo é quando você não se interessa por participar do culto ou da eucaristia, nem mesmo para santificar o Domingo. Nem se interessa pela oração. Igreja, religião…? Disse-me um dia desses um jovem: “estamos em outra”.

Laicismo é quando se destroem ou se perdem valores cristãos na vida social. É quando se quer negar ao cristão a dignidade de ser fiel, também na política, aos princípios cristãos da justiça e da paz. Hedonismo é quando a SUA prioridade é o prazer, a droga, o sexo sem freios, a gula, a preguiça… Ganância é quando o seu tesouro, e todo o seu empenho, é posto nos bens, no dinheiro, no poder, e não no Reino, nem em Jesus Cristo.

Relativismo religioso é quando, para você, tanto faz ser católico ou de outra religião.É quando para você é a mesma coisa ter ou não ter uma religião. Ou quando lhe basta ter uma religião, sem, porém, praticá-la.

É mais ou menos assim o tempo presente!

E Jesus pergunta: “Por que não julgais por vós mesmos?” E eu pergunto: como é que você não se dá conta do que há por trás da rápida proliferação de tantas igrejas ou seitas? – E, no entanto, Jesus pediu: “Ó Pai, que teus filhos sejam Um, como Tu e Eu somos Um” (Jo 17,22).

Todos sabem da diminuição das vocações sacerdotais e religiosas. Sabem da diminuição do número de fiéis na igreja – não só católica, mas também de outras religiões. – Está havendo poucos casamentos religiosos, e muito mais separações e divórcios… – Há poucas crianças na Catequese; poucos jovens na igreja.

São estes alguns dos sinais do nosso tempo. Não são só negativos, mas, muito mais positivos, como, por exemplo, as substanciosas pregações do nosso querido Papa Francisco, bem como seus gestos de solidariedade e de misericórdia com crianças e refugiados, etc.

Vemos jovens e adultos sequiosos de Deus; famintos da Palavra de Deus… Vemos muitos cristãos permanecendo fiéis a Jesus Cristo e à Igreja, mesmo perseguidos e martirizados… Vemos um crescente respeito e uma maior união entre as igrejas…

O que nos diz a Palavra de Deus, através do Apóstolo São Paulo, em Efésios 4,1-6? – Sejam fiéis à vocação que receberam através da pregação, da catequese e do Batismo! – Sejam fiéis e perseverantes nesta sublime voação de filhos de Deus! – Sejam fiéis à vocação cristã; ao seguimento de Jesus! – Sejam fiéis à vocação e à graça de serem católicos, de serem membros desta Igreja, fundada por Jesus Cristo, sobre o alicerce dos Apóstolos!

São Paulo diz também: “Guardem a unidade do Espírito pelo vínculo da paz!” Paulo dá as razões para sermos fiéis e unidos:

É porque “há um só Corpo” – o Corpo Místico de Cristo  -  do qual somos todos membros, e no qual somos todos irmãos. – É porque “há um só Espírito e uma só esperança” – a esperança de sermos salvos no mesmo céu!

E Paulo continua: “Há um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo, e um só Deus e Pai…, que permanece em todos!”. Toda divisão, separação… não são da vontade de Jesus!

Portanto, haja amor, união, perseverança na fé; e discernimento dos sinais do nosso tempo! – Com a luz do Espírito Santo e o auxílio da Mãe do Perpétuo Socorro!

Pe. Henrique Strehl, Cssr

“Acaso sou guarda de meu irmão?” (Gn 4,9)

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O relato bíblico do quarto capítulo do Livro do Gênesis narra a história de dois irmãos, Abel e Caim. Abel era pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo. Ao oferecerem a Javé as primícias de seus trabalhos, o texto diz que Javé agradou-se de Abel e de sua oferenda. Por esse motivo, Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido. Furioso, armou uma cilada. E, no campo se lançou contra seu irmão e o matou (cf. Gn 4,1-8).

Para esta reflexão, podemos nos perguntar: será que Caim não amava a Javé nem a seu irmão Abel? O que motivou tal atitude? Ciúme? Inveja? Falta de amor próprio? Ou, tudo ao mesmo tempo? O que este relato diz a nós hoje? Respeitamos nossos irmãos e irmãs como eles verdadeiramente são, ou somos levados pela onda do padrão social politicamente correto?

Vamos dar um salto na História Bíblica para tentar discorrer sobre o assunto partindo do Primeiro ao Segundo Testamento. O mandamento maior que recebemos de Jesus sugere-nos o amor a Deus sobre todas as coisas. E, como extensão, amar o próximo como a si mesmo. O amor é o elo que une afetiva e efetivamente as pessoas. Amar é querer bem os irmãos mesmo após as ofensas sofridas (Gn 45,1-28). É ser suporte (Ef 4,1-3) paciente, prestativo, benigno, caridoso, serviçal (1Cor 13,4-7). É assumir a atitude do bom samaritano (Lc 10,29-37) do pai misericordioso diante dos filhos perdidos (Lc 15,11-32), do bom pastor (Jo 10,1-18). É oferecer a ele o perdão (Lc 23,43) como caminho para a Ressurreição (Lc 24,13-35).

Amar implica, necessariamente, “saber onde está o irmão para dele cuidar. É manifestar interesse pelo que lhe acontece para alegrar-se com as alegrias e amparar-se mutuamente nos desânimos” (Faria, 2015). Neste sentido, ocupar-se do irmão não significa curiosidade pela vida pessoal, particular do que lhe acontece. Saber do irmão – de sangue ou de fé – ajuda no momento do perdão, da reconciliação e da orientação de vida. Favorece a compaixão ao entender e respeitar a outra pessoa em sua totalidade. Aquilo que ela verdadeiramente é: sem rugas, enganos, mentiras, máscaras, rodeios, subterfúgios.

Ocupar-se do irmão é ato gratuito de serviço prestado sem intenção de retorno. É assumir a atitude de Jesus que não apenas chama Levi (Mt 9,9) para ser um dos seus, mas toma partido ao defendê-lo diante de seus acusadores: “Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Mt 9,12). Por isso, amar, cuidar, defender e querer bem o irmão é correr o risco de ser mal interpretado, mal entendido assim como Jesus o foi. Sêneca, orador romano, insiste em dizer que, ainda que corramos risco é preciso arriscar, pois “somente a pessoa que corre riscos é livre para viver e amar”.

Não ocupar-se do irmão é o mesmo que dizer: “Você não tem importância para mim!”.  Brizzolara afirma que “o caminho para encontrar a fraternidade passa pelo reconhecimento da diversidade”. Se Caim tivesse aceitado ser “diferente” de Abel, não o teria matado, com o qual matou também a possibilidade de ser “irmão”. Quando se aprende a amar desde cedo se aprende também a respeitar a outra pessoa em sua dignidade, a não falar mal da vida alheia nem espalhar cizânia, intrigas e fofocas. Aprende-se a “tirar as sandálias” (cf. Ex 3,5) diante do diferente ao saber que ali está um “solo sagrado” onde ninguém tem o direito de invadir, rotular, preconceber, destruir, matar.

A falta de cuidado passa pela dificuldade em compreender verdadeiramente aquilo que se é. Para amar, cuidar, respeitar e não “matar” a outra pessoa é preciso antes saber amar e cuidar de si mesmo. Isso constitui na prática um grande desafio uma vez que esse cuidado exagerado conduz ao egocentrismo narcisista. Para Boff “o cuidado de si implica, em primeiríssimo lugar, acolher-se a si mesmo, assim como se é com suas aptidões e seus limites. É poder criar uma síntese onde as contradições não se anulam, mas o lado luminoso predomina”.

Saber-se amado é condição básica, fundamental para o cultivo do amor sincero e verdadeiro. É o dedicar tempo para falar, ouvir, sorrir, se divertir, chorar juntos. É ter esperança no amanhã e entender que nem todas as pessoas correspondem ao nosso amor da mesma forma que gostaríamos, ou do modo como a elas devotamos os nossos sentimentos e afetos.

Podemos finalizar então, dizendo que cuidar é respeitar as diferenças.  E, que para viver bem e feliz, a condição básica é ocupar-se do irmão e não querer destruí-lo. Onde está o teu irmão Abel? Esta foi a pergunta que Deus fez a Caim no passado. E, pode estar fazendo a mim e a você neste momento!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

Anunciar com o coração

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Mês de outubro é dedicado às Missões. Anunciar Jesus com as palavras e também com atitudes de vida. Mês para refletirmos sobre a importância de viver o que cremos, para que a mensagem evangélica chegue ao coração das pessoas. É preciso anunciar com o coração, mais do que com palavras. Diz um ditado popular que “as palavras convencem, os exemplos arrastam”, e é isso que precisamos refletir, estamos, como nosso modo de ser, conquistando pessoas para Deus?

O Papa Francisco tem nos ensinado como evangelizar, como levar a Palavra de Deus ao coração das pessoas e ele nos ensina dizendo que é preciso ter uma linguagem simples, cheia de Deus. Ele fala como Jesus falava, com simplicidade, mas de coração aberto, sensível ao povo destinatário de suas palavras.

Falar simples não é tão simples, pois exige muito mais que falar difícil, pois se trata de conhecer a verdade e ter sabedoria para transmitir às pessoas que escutam. O Papa (em sua Exortação Apostólica Alegria do Evangelho) usa a imagem da mãe. Ele diz: “A Igreja é mãe e prega ao povo como uma mãe fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confiança de que tudo o que lhe ensina é para seu bem, porque se sente amado” (EG 139). Francisco nos indica as consequências desta atitude materna a ser usada na pregação, no anúncio da Palavra. A mãe sabe o que o filho precisa, ela sabe escutar suas preocupações, ansiedades, necessidades e aprende com ele também. Isso porque ela ama, e o amor faz que ela esteja atenta para corrigir, orientar, educar através do diálogo.

Deus age conosco como uma mãe. O uso da linguagem materna que dá sabor de mãe ao anúncio. O anúncio não deve ser expressado com uma linguagem distante, mas sim de um modo que os destinatários da Palavra, do anúncio a compreendam e vivam a orientação que vem de Deus. Por isso acentua a importância do diálogo ser cultivado através da proximidade cordial daquele que anuncia, ou seja, anunciar com o coração. É uma verdade a ser meditada: os conselhos de mãe são sempre guardados, mesmo se não são bem aceitos no momento em que os recebemos.

Tenho percebido em minha experiência de quase trinta anos de ministérios sacerdotal que, quando falamos de coração a coração, a Palavra de Deus surte maior efeito nas pessoas e o mesmo acontece ao contrário, quando somos ríspidos, grosseiros, a Palavra não penetra no coração dos destinatários e os leva ao esfriamento religioso, quando não mudam de Igreja se transformando em inimigos da Igreja. Noto que o nosso modo de anunciar reflete por demais nas pessoas, tanto positiva como negativamente. Diante dessa constatação o que devemos fazer? Mudar nosso modo de anunciar. Somos missionários e discípulos de Jesus e, como Ele, devemos anunciar.

Jesus gostava de dialogar com seu povo. Cabe ao missionário sentir prazer de anunciar como o Senhor e ter a alegria de falar como Ele falava ao povo. O Papa Francisco lembra que o anúncio, a missão, é muito mais do que a comunicação de uma verdade, pois não se pode reduzir somente a palavras, mas na comunicação feita com amor. São Paulo escrevendo ao Romanos nos lembra: “A fé surge da pregação, e a pregação surge da palavra de Cristo” (Rm 10,17). O anúncio da Palavra será bom, terá efeito se houver o diálogo dos corações.

Reflitamos sobre essa frase, melhor dizendo, sobre essa expressão do Papa Francisco: “O pregador tem a difícil missão de unir os corações que se amam: o do Senhor e os corações de seu povo” (EG 143). Aquele que anuncia a palavra tem a missão de anunciar Jesus Cristo. Paulo nos exorta dizendo: “Não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, Senhor. Quanto a nós mesmos, é como servos de vocês que nos apresentamos, por causa de Jesus.” (2Cor 4,5).

A missão deve, portanto ser fruto de uma profunda convicção, de uma fé que está enraizada no coração, para chegarmos e atingirmos os corações das pessoas às quais nos são confiadas no trabalho pastoral. O Papa continua a nos ensinar dizendo: “Falar com o coração implica mantê-lo não só ardente, mas também iluminado pela integridade da Revelação e pelo caminho que essa Palavra percorreu no coração da Igreja e do nosso povo fiel”… “A identidade cristã é aquele abraço que o Pai nos deu quando pequeninos… e faz-nos anelar pelo abraço do Pai misericordioso que nos espera na glória” (EG 144). Estejamos, pois, atentos e procuremos falar de coração a coração, mostrar a convicção que nos faz cristãos, isso certamente provocará conversões. A missão será proveitosa, produtiva, operosa.

Pe. Walmir Garcia, C.Ss.R.

Missionário Redentorista

Amor que renova, traz a paz e a misericórdia

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Neste Ano Santo da Misericórdia, proclamado pelo Papa Francisco para a Igreja Católica em todo o mundo, temos visto o quão é grande a preocupação do nosso Santo Padre para com a humanidade, para com os filhos e filhas do Pai Eterno. Por várias vezes em que falou sobre misericórdia, em sua humildade, ele nos ensinou o quanto é precioso e imprescindível vivenciar o perdão em nossas vidas, a começar pelos nossos lares, em nossas famílias. É praticando o perdão no seio familiar que aprendemos a ser mais amáveis e maleáveis em relação aos erros, às ofensas e àquilo que o outro faz e que, porventura, acaba nos machucando.

Em toda a história da humanidade, sempre ouvimos falar sobre as guerras do passado, desencontros e discórdias entre pessoas e grupos que pensam e agem de maneira diferente uns dos outros. É triste perceber que, ao longo dos séculos evoluímos em tantos aspectos, principalmente no que tange à tecnologia, mas continuamos com os mesmos problemas de guerra, violência e discórdia que são frutos da intolerância e falta de amor, de perdão e de misericórdia de pessoas que, na maioria das vezes, não aceitam o estilo de vida e a maneira de viver do outro.

Na mídia, percebemos claramente que estamos vivendo um tempo em que a intolerância tem se mostrado muito presente. Pessoas que não têm amor umas pelas outras e que, por pura maldade e falta de discernimento em relação às escolhas pessoais do outro, praticam atos perversos e até criminosos para prejudicar o irmão.

Apesar de ver tantas coisas ruins que a mídia sensacionalista expõe diariamente, não devemos perder a esperança e é isso que o Ano Santo da Misericórdia nos ensina: que podemos alcançar um mundo melhor, se vivermos aqui na Terra, com os nossos irmãos, a mesma misericórdia que o Pai Eterno tem para conosco.

Se olharmos ao nosso redor, é muito fácil também encontrar pessoas de bom coração, que se preocupam com o irmão e que mostram, até mesmo por meio de pequenas atitudes, que é possível enxergar Jesus no outro e, dessa maneira, colocar em prática o amor e o perdão que Ele mesmo nos ensinou, quando veio cumprir Sua missão aqui na Terra.

Em sua Bula Misericordiae Vultus, n.10, o Papa Francisco nos ensina que “o perdão é uma força que ressuscita para uma vida nova e infunde a valentia para olhar o futuro com esperança”. É nisso que devemos acreditar, para que consigamos alcançar um mundo, onde a paz e o amor divino reinam. E neste mês de setembro, em meio à celebração do Ano Santo da Misericórdia, quando celebramos mais um Mês da Bíblia, refletimos o tema “Para que n´Ele nossos povos tenham vida” e o lema “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”.

A proposta é que seja estudado o livro do profeta Miqueias, como forma de levar às comunidades o desejo de conhecer os ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras. O que pode trazer aos corações dos fiéis, mais esperança, por meio de experiências de fé e vivência da oração, que nos aproximam do amor do Pai Eterno.

Em meio a tantas experiências negativas que temos presenciado com as violências diárias em todo o mundo, é muito importante ter homens e mulheres capazes de lutar para que a Palavra de Deus nunca se perca. Pessoas que servem ao Pai Eterno, evangelizando, com muita fé e perseverança, aqueles que não conseguem mais encontrar o sentido de suas vidas, levando a eles o amor verdadeiro, puro e divino, por meio da oração.

Santo Afonso Maria de Ligório nos ensina que não há meio mais necessário e mais eficaz para vencer as tentações contra a virtude angélica do que o recurso imediato a Deus pela oração (cf. S. Alphonsus a Liguori, Pratica di amar Gesù Cristo, c.17, nn. 7-16). Portanto, abramos os nossos corações para que, através de nossa oração, estudo da Palavra e testemunho de fé, possamos levar o amor do Pai Eterno a todos os lugares, mostrando que é possível viver a paz. Basta se colocar a serviço do Pai, enxergar Jesus no outro e respeitar as escolhas do outro, lembrando sempre de amar quando for preciso e perdoar quando necessário.

Que também, a exemplo da Virgem Mãe Santíssima, possamos acolher a Palavra de Deus em nossos corações, deixando que o Espírito Santo aja em nossas vidas, de acordo com os desígnios de Deus para cada um de nós. Tenhamos fé e, acima de tudo, esperança. O Pai Eterno nunca abandona os Seus filhos, principalmente quando eles decidem por seguir o Seu caminho e continuar a missão que o próprio Jesus nos deixou, de anunciar o Evangelho a todas as nações (cf. Mc 16,15).

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Superior Provincial dos Redentoristas de Goiás e Presidente-fundador da Afipe

O que vem a ser a fé?

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Muito se ouve dizer que o problema da humanidade moderna é a falta de fé. Alguns especialistas da área das ciências humanas, como o filósofo Sousa (2010), dizem que “o grande problema do homem moderno é a falta de sentido  da vida e o vazio de sua  interioridade”. Pergunto, então:  o que vem a ser a fé? Ela contribui ou atrapalha a vida do ser humano? Favorece ou limita sua capacidade para ser livre, criar, produzir e transformar?

Pretendo, muito rapidamente, sem ousar querer esgotar o assunto, discorrer sobre essa realidade tão vital para o ser humano. Duvidar, questionar, pesquisar e  refutar não é problema algum. É próprio de quem busca clareza de vida, do mundo que o rodeia, das pessoas com as quais convive e da existência de Deus. O problema é o fechar os olhos à possibilidade de conhecer minimamente aquilo que se é, donde tudo provém e para onde tudo se finaliza.

O Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa define a fé com uma “adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro. Um sentimento de quem acredita em determinadas ideias ou princípios religiosos”. E, alarga esta compreensão ainda que na forma de uma simples crença ao dizer que ela é um “estado ou atitude de quem acredita ou tem esperança em algo”. Na Carta aos Coríntios, Paulo afirma que neste mundo caminhamos movidos pela fé. E, ainda que ela nos aponte Deus, não somos capazes de vê-lo claramente em todos os seus mistérios (cf. 2 Cor 5, 7) de forma que a compreensão que temos d’Ele assemelha-se a um mirar num espelho. Ou seja, uma visão de maneira confusa e imperfeita (cf. 1 Cor, 13, 12).

A Carta aos Hebreus diz que a fé é um conhecimento de Deus, um ”firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se vêem. Pois, Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho” (Hb 1,1-2). A fé nos coloca em sintonia com o Pai Eterno obedecendo os desígnios e propósitos divinos que Ele tem traçado para cada um de nós. “Pela fé, Abraão obedeceu ao chamamento de Deus, e partiu para uma terra que viria a receber como herança: partiu, sem saber para onde ia (Hb 11, 8). Pela fé, viveu como estrangeiro e peregrino na terra prometida. Pela fé, Sara recebeu a graça de conceber o filho da promessa. (CIC 145)”. E, Maria deu a luz ao Salvador, Jesus Cristo.

Fé se aprende a ter. Nenhum de nós nasceu tendo fé. A fé não é uma herança genética. Ela é adquirida e construída ”pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento”. (Becker, 1993). Foram nossos pais ou avós quem nos introduziram, inicialmente, no universo da fé que professamos. Posterior a isso, contribuíram conosco leigos piedosos, catequistas, padres, religiosos e religiosas.

No mais profundo existir, a fé é dom. É gratuidade de Deus. Ao dizer que o Pai Eterno não esmaga uma cana quebrada nem apaga um pavio que ainda fumega (cf. Is 42,3), o Profeta Isaías aponta para a realidade de um Deus que é justo, plenamente bondoso, generoso, misericordioso. Um Deus que ama, que acredita e confia na pessoa humana e está sempre disposto a perdoá-la. Se ele perdoa é porque acredita, tem fé. Dá uma nova chance, uma oportunidade a mais a quem vacilou, errou, pecou, caiu. E, confere-nos o poder da fé: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: arranca-te e replanta-te no mar, e ela vos obedecerá” (Lc 17, 6). Ou, “direis a esta montanha: transporta-te, daqui para lá e ela se transportará,  e nada vos será impossível” (Mt 17, 20).

Ao contrário de impedir e limitar a fé conduz-nos à liberdade plena e total auxiliando na cicatrização e cura de muitas mazelas e fraquezas humanas que são inerentes à nossa condição frágil, limitada, pecadora. Sendo assim, a fé cristã transforma o mundo e nos aponta para Deus e nos ensina n’Ele confiar num ato de sabedoria. Além do mais, a fé nos leva a acreditar na Ressurreição e a aguardar o feliz dia do nosso retorno à vida eterna.

Concluo essa rápida reflexão dizendo que é preciso ter fé para crer até mesmo no absurdo. E, que o problema maior do mundo moderno é a arrogância humana diante de questões às quais ainda não somos capazes sequer de imaginá-las como elas verdadeiramente são. Ter fé é ser capaz de, mediante os limites e fraquezas humanas dar uma resposta inteligente aos desafios da vida e questionamentos de Deus para nós: “Filho do homem será que estes ossos podem voltar à vida?” (Ez 37,3).

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.

Reitor do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno

 

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