SER MÃE É UMA QUESTÃO DE VOCAÇÃO!

maio 13, 2012 on 4:26 pm | In Pe. Robson | Sem Comentários

A maternidade é o maior dom que o Pai Eterno conferiu à figura da mulher. Aquela que assume essa responsabilidade é digna de mérito Divino e de reverência humana: “Gerei um ser humano com o auxílio do Senhor” (Gn 4,1). A maternidade é um carisma que deve ser acolhido com o coração agradecido e não com desgosto! Muito mais que um corpo ou além de pendências financeiras está uma graça proveniente da Santíssima Trindade: fonte de onde emana o existir humano!

A mulher traz, no interior do seu coração, a pulsão da vida. Em suas veias corre o sangue da batalha em lutar por direitos sociais igualitários, em desmentir a imagem de fragilidade, em conquistar novos campos profissionais, em despontar no mercado de trabalho, em conseguir conciliar casa e serviço e em ser capaz de dar a vida por seus amados filhos!

A vocação existencial da mulher é ser mãe, acima de tudo! E é este dom que confere o valor incondicional da vida humana! Mais que uma data histórica do calendário civil, o dia das mães é a sublime celebração da transmissão da vida! Somente pela fé seremos capazes de compreender tamanho mistério. A condição existencial do “ser mãe” está imersa no Mistério Divino. “A maternidade é [...] um dom de Deus à mulher: pela maternidade, esta participa de modo singular e especial do poder gerador de Deus. Torna-se sacramento da paternidade de Deus, manifestando ao mundo que Pai é doador de toda vida. O dom da vida humana sempre passa pelo sagrado ventre de uma mãe!” (Pe. Placimário Ferreira).

O dia das mães teve um pré-início no século XVII, quando as indústrias inglesas permitiram às operárias a liberação para ficarem com seus filhos. Tal fato acontecia sempre no quarto domingo da Quaresma. Contudo, a exclusividade da data surgiu, nos Estados Unidos, após as primeiras investidas de Júlia Ward Howe, em 1872. Júlia foi a compositora do hino do país. Posteriormente, o dia das mães teve início quando Ana Javis organizou uma campanha, com um grupo de amigas, para comemorar a data, após o falecimento da própria mãe. Seria uma forma de superar a depressão. Em 1914, Woodrow Wilson, Presidente dos Estados Unidos, oficializou a data para todos os estados do país. Em questão de pouco tempo a celebração se estendeu para mais de quarenta nações e hoje se tornou uma comemoração universal.

Historicamente, a data visa à celebração do amor e do afeto. Muito mais que presentes caros, é chegado o momento de perdoar antigas mágoas e reatar o laço fundamental de nossas vidas. Mais admirável que festas fartas; está o diálogo, a compreensão, a paciência com aquela que nos deu a existência. Junto às flores, os sorrisos, os jantares ou a simples lembrança deve estar unida a frase que resume a história de nossa existência: EU TE AMO, MÃE!

Nesta festividade, estaremos diante da pessoa que acompanhou todos os nossos passos e foi o sinal concreto da ternura de Deus por cada um de nós! Ela nos colocou no mundo, nos ensinou a andar e falar, deu as primeiras broncas, foi a nossa primeira visão de mundo, passou fome para nos dar de comer, trabalhou para nos sustentar, nos protegeu do nervosismo das pessoas, nos defendeu de inúmeros perigos, nos ensinou os valores da vida e nos humanizou!

Eis a paternidade Divina presente na maternidade da mulher! Mas, “infelizmente, há que reconhecer que muitas vezes a mulher, em vez de ser enaltecida, é explorada. Quantas vezes ela é tratada não como pessoa, com a sua dignidade inviolável; mas como objeto, cujo objetivo é satisfazer os apetites alheios de prazer ou de poder! Quantas vezes o papel da mulher como esposa e mãe é minimizado, ou até mesmo ridicularizado! Quantas vezes o papel da mulher no mundo dos negócios ou da vida profissional é apresentado como uma caricatura masculina, uma negação dos dons específicos da perspectiva feminina, compaixão e compreensão, que contribui tão notavelmente para a ‘civilização do amor’” (Julie Maria).

Ser mãe é olhar para céu e agradecer ao Pai Eterno por tamanha graça! Aqueles que as possuem, na terra, devem estimá-las e fazer tudo por elas! Aqueles que as possuem, no céu, devem eternizá-las; sendo gratos a Deus por ter conhecido um ser tão magnífico como uma mãe.

Unamo-nos à Maria, Mãe de Jesus, e celebremos a maternidade divina presente em nossa vida. Feliz dia das mães!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
Twitter: @padrerobson
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REVISITAR OS VALORES PARA NÃO ESQUECÊ-LOS

maio 6, 2012 on 11:45 am | In Pe. Robson | Sem Comentários

Desde os tempos mais antigos os nossos irmãos judeus falavam do coração como o recinto para a experiência de encontro com Deus: horizonte onde nasce a fé e se alicerça a esperança. É a linguagem da alma. No coração estão as nossas feridas e os fatos do passado, ainda não resolvidos. Uma memória registrada do tudo o que sentimos, padecemos e precisamos superar. Só quem conheceu o sofrimento tem consciência das dores que necessitam ser curadas pelo amor do Pai. Apenas quem tocou o seu “eu interior” é capaz de descobrir os próprios erros e acertos.  Por mais que as neurociências centralizem as emoções no cérebro, a espiritualidade associará o coração como o espaço dos afetos e desafetos da alma.

Para alguns a subjetividade humana é uma verdadeira desconhecida. Esses concebem a sua realidade mais profunda como a estranha que se deve tomar distância. Justamente por isso, fazem de tudo para não pensar nas verdadeiras motivações das atitudes que tomam no cotidiano. O fato é que quanto mais adentramos os labirintos do coração, mais encontramos Deus. Os verbos “submergir”, “embrenhar” e “entrar” são bastante utilizados na vida espiritual de quem não tem medo de si nem de seus sentimentos.

No dia a dia enfrentamos situações, resolvemos problemas, tomamos decisões, ficamos chateados, esbanjamos alegria, mas não questionamos o que está por trás de nossas ações. Toda atitude supõe um comportamento com certa finalidade. Só agimos porque possuímos uma intenção, que pode ser motivada pela raiva, pela mágoa, pelo agradecimento, pela gratuidade ou, simplesmente, pelo amor. Tudo depende da ocasião e do momento específico. Por esse motivo é tão importante conhecer o “eu interior”, pois é lá que habita o Pai Eterno e os sentimentos que persistem arrombar a porta do nosso coração.

Junto às emoções estão os nossos valores: ensinados e aprendidos na infância, colocados em prática na juventude e impregnados em nossa essência por toda a vida. Uns são vivenciados e outros, infelizmente, acabam esquecidos. A influência do meio que vivemos, determinadas amizades, a convivência no ambiente de trabalho e o amadurecimento pessoal confirmam os nossos valores ou os negam.

Feliz é a pessoa que se deixa orientar por um princípio de vida, seja ele religioso, ético ou moral. Importa fundamentar a existência a partir de uma convicção interna que nos faz ser melhores. Falo de valores que nos humanizam! Falo de sentido que orienta! Falo de significado que não nos deixa ser vazios nem superficiais!

Uma séria revisão de vida nos faz pensar no modo como temos vivenciado os nossos valores. Será que ao olharmos para a nossa história encontraremos valores escondidos, deixados ao léu ou colocados em prática? Ao término de cada dia é importante olhar para as próprias atitudes e perceber onde pecamos e como poderíamos ser aprimorados na santidade. Fazendo este exercício diário tomaríamos consciência dos erros cometidos e acertaríamos mais, também reconheceríamos os nossos valores e os vivenciaríamos com frequência.

Pensemos no altar do nosso coração e, com sinceridade, olhemos para ver se ali há algum ídolo determinando nossas ações, orientando nossos afetos ou servindo de referencial entre o certo e o errado. Se analisarmos bem, veremos que eles estão a ocupar um lugar que pertence unicamente a Deus. Talvez sejam bens materiais, sentimentos exagerados por pessoas e até apego a cargos ou funções. Qualquer situação boa ou má pode se tornar um valor quando o colocamos como a prioridade absoluta de nossa vida.

A pessoa de valor sempre age de forma diferente, pois sua vida é pautada pelas qualidades mais nobres do humano. Ela não escuta a voz da galera e não vive de acordo com os aplausos da maioria. São os valores que justificam suas ações. Quando muitos falam que se deve pagar o mal com o mal, ela oferece o perdão incondicional. Quando outros insistem na fofoca, ela prefere se silenciar. Se não pode falar bem, também não fala mal. Quando alguns escolhem ferir corações, ela opta pelo bálsamo do amor, derramando paz, paciência e diálogo onde antes imperava o ódio.

Permitamos que o Tempo Pascal nos ensine a viver de acordo com aquilo que cremos. Que não haja espaço para uma vida com dois sentidos. Não se pode viver de acordo com a ocasião, somente em vista de benefícios pessoais. Que a coerência seja o primeiro critério para que Jesus venha ressuscitar em nossos corações! Termino este artigo com o sentimento de que a fé solicita de mim e de você um compromisso sincero e firme com os nossos valores! Que nossas atitudes deem testemunho do Deus que acreditamos!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.

Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
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POR QUE SOFREMOS TANTO?

abril 30, 2012 on 12:07 pm | In Pe. Robson | Sem Comentários

Por mais que a vida nos convide à realidade e nos conscientize de que somos os grandes responsáveis pela transformação social, às vezes insistimos em uma existência desprovida de problemas. Há ocasiões em que sonhamos com um mundo perfeito, onde não exista dor ou qualquer tipo de sofrimento. É o ambiente da fantasia, daquela imaginação ingênua e, talvez, um pouco acriançada, em que não precisamos solucionar nada, pois já está tudo resolvido. No íntimo do coração humano há sempre o sonho do paraíso terrestre. No deserto da existência não aceitamos que a miragem seja perdida, pois acreditamos na utopia. Graças a Deus!

Quando abatidos pelo sofrimento nos sentimos fracos. Vem ao coração o sentimento de que estamos perdendo o combate. Há um misto de desilusão e de medos injustos, sem falar das lágrimas que são constantes. Tornamo-nos necessitados, clamamos para que o mal fique longe de nós, chegamos ao extremo de nossa fé. Alguns conseguem passar pela dor de uma maneira sóbria, concedendo força aos demais. Mesmo na tempestade, mantêm a mansidão. Outros ficam agitados, levantam-se contra tudo e contra todos. Nos últimos casos, tornam-se vítimas de seus próprios sofrimentos. Independente do modo como administramos as intempéries vida, o mais importante é reconhecer o problema sem acusar quem quer que seja.

Diante dos tormentos, somos tentados a culpar pessoas ou situações. É possível que a responsabilidade do sofrimento esteja além de nós, contudo, faz bem pensar que as pessoas só fazem conosco o que permitimos e até quando permitimos. A fé cristã sempre nos conscientizará de que somos agentes de nossa própria história. Não podemos conceder aos outros o poder de conduzir as rédeas da nossa vida. Sendo a existência um espetáculo não ensaiado, cabe a nós a missão de protagonistas, não de figurantes.

Nos momentos mais extremos algumas perguntas vêm à tona: “O que fiz para merecer isso?”, “Até quando, meu Deus?”, “Por que estou pagando pelos pecados cometidos?”. Estes questionamentos são contrários à fé. Em hipótese alguma Deus pode ‘enviar’ ou ‘permitir’ o mal. Sua natureza paternal não estabelece nenhuma relação com as dificuldades. Se nos é possível pensar na Essência Divina, podemos dizer que ela é movida por um amor gratuito, envolto em bondade, cheio de misericórdia e, acima de tudo, incondicional. Assim revelou Jesus (Cf. Jo 8,38).

Eis um Deus que não impõe condições para amar, que age com ternura, porque é Pai! Frente ao Seu amor tudo se transforma. Onde habitava o pecado, agora vive a esperança da graça; no lugar das constantes tristezas, passa a habitar o dom da alegria; nas ocasiões em que o ódio mandava, agora quem comanda, é o perdão. É impossível se aproximar do Pai e não ser tocado pelo Seu amor, sem restrições.

Ao criar o mundo, Deus não podia criar a Si mesmo. Justamente por isso que a existência humana não pode ser perfeita. Na verdade, ela tem as características da limitação e da finitude. Por não ser acabado, mas construído, o mundo possui certas extremidades que agem como obstáculos à nossa realização. Dessa forma, podemos ser felizes e plenos, mas dificilmente livres do sofrimento. Pela fé, devemos confiar cada dificuldade ao Pai, para que assim Ele nos impulsione a superá-las, concedendo a força e os mecanismos necessários para a prática do bem. É como dizia o mais importante escritor cristão do Século II: “Somos as mãos de Deus agindo no mundo” (Santo Irineu).

O Pai Eterno não é rival do ser humano, não nos impõe pesados fardos nem nos enche de sofrimentos. Ele é puro amor e legítima salvação. Não nos diminui, pelo contrário, nos potencializa. Deus acredita em nós e não deve ser confundido com a imagem da tirania e do medo, pois são avessas à fé. Não há temor no amor; ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica um castigo, e o que teme não chegou à perfeição do amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (I Jo 4,18-19).

Seguindo a tradição da Igreja, na Sua realidade de Mãe e Mestra, olhemos para as Sagradas Escrituras, sem fundamentalismo. Lá encontraremos o Deus anunciado por Jesus. É urgente a tarefa de olhar para a totalidade bíblica a partir dos Evangelhos, do testemunho das primeiras comunidades cristãs, tendo como critério as orientações emanadas do Sagrado Magistério.

A fé nasce do testemunho das testemunhas. Ela vem pelo ouvir (Cf. Rm 10,17). Já o sofrimento surge da autonomia existencial do mundo: “O mal é uma realidade mundana e um problema humano universal, por isso deve ser tratado enquanto tal. [...]. O problema do mal deve ser tratado em e por si mesmo. Isso quer dizer que o mundo não é mau em si, mas, devido a sua limitação, o mundo se apresenta como condição de possibilidade, que torna inevitável a existência do mal” (Andrés Torres Queiruga).

Nos últimos tempos, tenho aprendido que a possibilidade de um mundo sem mal depende de cada um de nós! Juntos e amparados pelo Pai Eterno, podemos lutar por uma sociedade mais ética e por uma família mais santa. Não neguemos a nossa responsabilidade. A fé conta comigo e contigo! Sendo o sofrimento algo inerente ao mundo, olhemos para o Pai, pois Ele está à frente de toda pedra que aparecer em nosso caminho rumo ao céu! Para além da dor há um Rosto. Olhemos e não tenhamos medo! É o Pai!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
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A EVANGELIZAÇÃO COMEÇA PELOS SENTIDOS

abril 22, 2012 on 12:33 pm | In Pe. Robson | Sem Comentários

Seguindo o critério da Filosofia Aristotélica, lá na Grécia Antiga, sabemos que o humano é um ser sensorial. Por ‘sensorial’ compreende-se os cinco tradicionais sentidos: a visão, o olfato, o paladar, a audição e o tato. Mas, para as Ciências Biológicas e para a Neurologia possuímos mais de 20 sentidos. Eles trabalham em conjunto e atuam no modo captamos o mundo a nossa volta.

Independente da quantidade, as características sensoriais podem ser concentradas em dois critérios mentais: sensação e percepção. Quando um órgão do sentido deixa de funcionar é recompensado por outro imediatamente. As famílias que têm alguém com perda total ou parcial da visão sabem que, com o passar do tempo, a pessoa desenvolve novas capacidades, percebendo sons e ruídos que antes desconhecia. Chega a distinguir pelo barulho dos passos, pela feição do rosto ou pelo som da voz. Mesmo longe e por anos seguidos, ela sabe diferenciar quem é quem. Dificilmente erram no reconhecimento.

No cérebro existem os chamados nervos sensoriais, capazes de receber as mensagens do ambiente externo e transmiti-las para o sistema nervoso central. É assim que percebemos o frio, degustamos o sabor e o azedume dos alimentos, ouvimos barulhos, sentimos o cheiro e o odor das coisas; como também vemos a totalidade do que nos cerca.

Neste artigo, prefiro falar dos sentidos na ótica da espiritualidade, enquanto metáforas da fé. Comecemos, portanto, pela visão, tradicionalmente associada às retinas dos olhos. Por ela caracterizamos a cor e a forma dos objetos. Mas, também rotulamos pessoas e geramos preconceitos, até mesmo inconscientes. Às vezes, rompemos com o dom do diálogo, porque só vemos o nosso ponto de vista. Não há espaço para enxergar a situação a partir do outro. Julgamos fatos ilusórios e imaginamos situações que, talvez, nem existiram. Há alguns que só veem as suas próprias verdades. Não conseguem reconhecer que estão erradas. Têm uma enorme dificuldade de pedir perdão, principalmente quando é necessário se colocar no lugar do outro. Nessas circunstâncias a visão necessita ser evangelizada.

Próximo à visão está o olfato, vinculado às cavidades nasais, mas conhecidas como narinas. Os cristãos ou, pelo o menos, as pessoas mais éticas devem ter um olfato bem aguçado, para sentir o cheiro do pecado por onde ele se alastra. Todos os dias somos tentados a trair nossa fé e abandonar os nossos valores mais profundos. Por isso, devemos espalhar o aroma da esperança no ambiente de trabalho, a fragrância da compreensão dentro de casa, o perfume da caridade entre os pobres e rescender a transparência da verdade no campo profissional. Tudo que assumimos precisa ser marcado pelo selo da fé. Este é um dos caminhos para fazer diferença no mundo.

Abaixo das narinas se encontra língua e junto a ela o paladar: sensível ao ácido, ao doce, ao amargo, ao salgado e ao umami (presente em pratos japoneses e em produtos industrializados prontos). Dentre os órgãos do sentido, a língua é um dos mais usados, tanto para o bem, quanto para o mal. No dia a dia elogiamos alguns e criticamos outros, recriminamos esses e acolhemos aqueles, louvamos e, sem perceber, insultamos (Cf. Tiago 3). A língua é o espelho do nosso eu interior. Ela reflete nossas mágoas, nossas intrigas, mas também, nossas bondades. Quer conhecer uma pessoa? Preste bastante atenção nos seus olhos e no modo como ela fala. São dois caminhos possíveis para perceber o que está por trás das palavras ditas e dos olhos refletidos.

Nas extremidades da face estão os ouvidos, que nos permitem identificar os sons pelos nervos auditivos. Muitas vezes falamos o que queremos e ouvimos o que não gostamos. Tratamos logo de rebater as críticas, as fofocas e as contendas, quando o mais sábio é manter o silêncio, para só depois dialogar. Há momentos em que insistimos “não levar desaforo para casa”. Gastamos uma energia desnecessária ao tirar satisfação de conversinhas soltas, vivendo em função do que os outros dizem a nosso respeito. Se não houver evangelização, dificilmente conseguiremos nos libertar dos comentários maldosos e das rixas do passado.

Recobrindo todo o corpo está o tato, associado à pele. É ali que desenvolvemos as sensações térmicas do calor e do frio, do quente e do gelado. A pele que reveste o cristão é a fé. Eis o termômetro utilizado para medir a temperatura da vida espiritual. Somos aferidos pelo o que cremos e praticamos. Nossas obras devem dar testemunho da nossa fé, pigmentando o mundo de esperança.

A evangelização não é um fenômeno isolado. Pelo contrário, ela nasce da experiência que fazemos no coração do Pai Eterno e vai tomando conta de todo o nosso ser. Nada lhe é estranho. Diante dela tudo pode ser salvo: espírito, alma, corpo e mente. A evangelização começa pelas nossas feridas e só chegará à plenitude quando a nossa totalidade conhecer o rosto amoroso de Deus. Aí então seremos humanizados e ressuscitados. Alcançaremos uma existência permeada de significado e destituída de vazio, depressão e desafetos. Mergulhemos de cabeça na experiência de Deus, permitindo que Ele evangelize os nossos sentidos, até que a fé deixe de ser comparada a sentimentos e se torne convicção.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
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A MORTE LEGALIZADA DOS ANENCÉFALOS

abril 16, 2012 on 7:47 am | In Pe. Robson | 2 Comentários

Constantemente, a vida humana é ameaçada por aqueles que a compreendem como uma simples coisa, um mero objeto de estudo destituído de seu valor no coração do Pai Eterno. De forma incisiva, a Igreja não se cala perante tantas e tamanhas violações. Diante da vida não há preço, muito menos barganha. Ela é ofertada e gerada, não podendo ser interrompida; é sonhada, jamais adulterada; é transmitida, nunca reprimida. Ninguém é proprietário de um dom recebido das mãos de Deus. Ele é o doador da existência. Nós somos apenas administradores.

A dignidade da vida nos impede de reduzi-la a discursos politizados ou puramente científicos, que só reconhecem o que é provado ou manipulado. Por uma questão de responsabilidade moral, devemos olhar para a vida a partir do que ela é: Sagrada e Divina. Apontando para a consciência ética, cabe-nos defendê-la, concebendo a individualidade do feto ou do embrião, para que não seja expulso do ventre materno, ‘com’ ou ‘sem’ condições de vitalidade.

O Pai Eterno é o autor da existência. Nele está o fundamento que sustenta o sopro de todo ser que respira. A gênese da vida está nas entranhas de Deus. Mesmo assim, no dia em que escrevo este artigo, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, passando a confiar às famílias a escolha entre a vida ou a morte do feto com má formação congênita. Antes desta decisão, o aborto era prescrito como crime, pelo Código de Direito Penal, com a detenção de até três anos para quem o praticasse.

Com todo respeito à Suprema Corte e aos seus Meritíssimos Ministros, há de se pensar que a vida não é somente um assunto da esfera jurídica, mas também, do campo moral e, sobretudo, da ética. Por se tratar de uma ação em sociedade, a religião tem o dever, não só o direito, de proteger a vida, pois nem tudo que é legalizado pode ser considerado humano, bondoso e saudável, ainda mais quando há o objetivo cruel de eliminar a existência de um inocente.

A anencefalia é uma palavra de origem latina e designa o feto que é gerado sem o encéfalo. Anatomicamente, o encéfalo é uma parte do sistema nervoso central, contida no crânio e formada pelo cérebro, cerebelo, mesocéfalo e bolbo raquidiano. Na verdade, o problema está na ausência de soldadura no tubo neural do próprio encéfalo. Não há cura para a doença e suas causas ainda são obscuras, atacando tanto meninos, quanto meninas durante a 23° e 26° semana de gestação.

O anencéfalo é gerado com a ausência total ou parcial do cérebro. Na maioria dos casos, a morte se dá no desenvolvimento do feto ou durante o parto. Aqueles que ultrapassam o nascimento chegam a viver por poucas horas e até meses. São raríssimas as ocorrências de sobrevivência por anos seguidos.

Independente do momento em que a morte acontece, importa reconhecer que o valor da vida não está em defeitos congênitos, em anomalias uterinas, em dificuldades financeiras ou na visão sanitarista, por mais intencionadas que elas sejam. “Em nome de qual justiça se realiza a mais injusta das discriminações entre as pessoas, declarando algumas dignas de ser defendidas, enquanto a outras esta dignidade é negada? Deste modo e para descrédito das suas regras, a democracia caminha pela estrada de um substancial totalitarismo. O Estado deixa de ser a ‘casa comum’, onde todos podem viver segundo princípios de substancial igualdade e transforma-se num Estado tirano, que presume poder dispor da vida dos mais débeis e indefesos, como a criança ainda não nascida, em nome de uma utilidade pública que, na realidade, não é senão o interesse de alguns” (João Paulo II, Evangelium Vitae, nº 20).

Percebe-se que uma decisão de grande impacto social é tomada aos poucos até que se chegue à sua totalidade. A decisão do STF é apenas a ponta do iceberg para abrir precedência à liberalização do aborto, em todas as suas variantes; bem como à eutanásia, na morte sem dor ou sofrimento, à pena de morte pelos delitos sociais e à violação da vida, por meio da clonagem, das pesquisas com células-tronco embrionárias e da fertilização in vitro.

É impossível não pensar na figura da mulher e no sentimento de culpa que vem à tona logo após a prática do aborto ou passados alguns anos. Com ou sem encéfalo, ela permitiu a execução de um inocente, deixando de lado a maternidade, para supervalorizar o ego particular. Hoje, há inúmeros relatos de esterilidade por ansiedade, de depressão grave e de perigosas fobias condicionadas à experiência abortiva. Não se trata de gerar medo em quem lê este artigo, mas de pensar nas consequências dos atos assumidos para toda a história pessoal.

Diante da vida não pode haver privilégio exclusivo para os pais. A eles cabe acolher e respeitar a dimensão de Mistério, contida na existência. Sem extremismo é possível dizer que a interrupção da gravidez de anencéfalos é tirana e perversa. Aqueles que deveriam defender a vida dos próprios filhos escolhem a injustiça de assassiná-los, colocando vontades pessoais acima da existência de inocentes que não pediram para nascer! Que nossas mãos não estejam marcadas pelo sangue das pequenas vítimas, quando nos depararmos com a nossa própria morte, pois não há justificativa para quem decide violar a realidade mais sagrada do humano: a vida confiada por Deus!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
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A MORTE NÃO TEVE A ÚLTIMA PALAVRA!

abril 9, 2012 on 8:00 am | In Pe. Robson | 3 Comentários

A vida não é apenas uma dádiva da natureza. Para além da ordem natural das coisas, está Deus que tudo move, orienta e fecunda ao nos conceder o dom da vida. Ele é o fundamento de uma existência alicerçada no serviço incondicional aos irmãos. Todos os momentos que deixamos de lado o egoísmo, nos abrindo à caridade; todas às vezes que renunciamos ao ódio e nos abrimos à experiência libertadora do perdão; todas as ocasiões em que abandonamos o nervosismo e somos pacificados pela fé: estamos vivendo a vida em plenitude!

A existência só tem significado quando é gasta em função das pessoas. Como é sem sentido o cotidiano de alguém que pensa somente em si, nas suas próprias picuinhas, querendo se beneficiar a todo e qualquer custo, em detrimento aos demais. Jesus viveu o oposto de tudo isso. Seu olhar se pautava pela fidelidade ao Pai e perscrutava o coração humano. Ele conhecia as feridas da alma e os graves problemas que atormentavam aqueles que passavam pelo Seu caminho. Nesta perspectiva, Sua existência tornou-se dom porque foi consumida em função dos outros, principalmente das minorias excluídas.

O Amor triunfa de uma existência voltada para a prática do bem. Assim foi a vida do Filho amado do Pai Eterno. A Ressurreição é consequência direta deste gastar-Se até as últimas consequências, sem medo do futuro. Era impossível que a morte cale-se uma vida que foi exemplo de doação total e de abnegação de Si. Não há silêncio diante de Alguém que foi maior que o sofrimento imposto pela Cruz.

O cristão, que assume a missão de continuar Jesus no mundo, não é dominado pela dor nem pelas dificuldades. As tormentas vêm, mas não conseguem roubar a paz de espírito. Cada vez que evangelizamos, pelo testemunho; perdoamos quem nos deseja o mal e temos o amor como única rivalidade: estamos ressuscitando e gerando ressurreição. Portanto, a Páscoa não é um evento do passado, pelo contrário, é atualizado no presente, em vista de um futuro como o de Jesus. Mesmo que tenhamos que passar pelas cruzes da vida e sejamos experimentados pelos sofrimentos.

O sepulcro vazio é a prova mais concreta de que “o Ressuscitado põe tudo em agitação, desperta tudo o que dorme, desarruma a ordem natural das coisas, desencadeia o turbilhão da vida que vence todas as mortes” (Vitor Gonçalves). Cedemos à morte quando falamos mal das outras pessoas; quando podíamos ajudar, mas não o fazemos, pois nos incomoda; quando não damos de comer ou de beber àqueles que são vítimas da imerecida injustiça social (Cf. Rm 12,9-21).

Por meio da Ressurreição acolhemos o dom de Deus em nossa vida. Passamos a agir pela ótica do amor. Sepultamos a pessoa velha e renascemos como pessoas renovadas em Cristo. O mais bonito da Ressurreição é que a mensagem de Jesus continua viva e atualizada por cada um de nós. Seus ensinamentos, Suas ações, Sua morte na Cruz não foram em vão.

Fundamentados na fé das primeiras testemunhas da Ressurreição confessemos: “O Senhor Ressuscitou, verdadeiramente, aleluia!”. Portanto, tenhamos a coragem de dialogar com as opiniões diferentes dentro de casa, lutar por uma família mais unida e uma sociedade mais justa, conscientizando pessoas em busca de seus direitos, a começar pela prática de seus deveres.

Não devemos ter medo de nos entregar a Cristo. O Mestre de Nazaré não nos tira nada de satisfatório, pelo contrário, nos concede tudo que necessitamos para viver em plenitude. É hora de renovar as esperanças diante de todos que estão à nossa volta. Não nos é correto desistir das pessoas, pois Deus nunca desistiu de nós, mesmo com nossos pecados.

O coração da fé cristã é a Ressurreição!A fé no Ressuscitado nos impulsiona a ir ao encontro dos crucificados de hoje, nos colocar a seu lado, para partilhar com eles este sorriso, a certeza alegre que Deus está vivo no meio de nós, ressuscitando, libertando da morte e fazendo uma nova criação” (Instituto Humanitas Unisinos). Que nesta Páscoa permitamos rolar a pedra do ódio, do rancor e do desamor. Deixemos o sepulcro do medo vazio e, de mãos atadas com Cristo, ressuscitemos com Ele.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
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E SE O NARIZ CRESCESSE NO DIA DA MENTIRA?

abril 2, 2012 on 5:21 pm | In Pe. Robson | 2 Comentários

Muito além do mundo fantasioso de Walt Disney, está a história de Pinóquio, contada pelo jornalista e escritor italiano, Carlo Collodi, entre 1881 e 1883. É estranho falar do imaginário infantil ocidental sem mencionar este clássico da literatura, proveniente do simbólico boneco de madeira que sonhava ser humano.

O conto tem início a partir de um dedicado carpinteiro, chamado Gepeto.  Mesmo se sentindo muito só, não deixava de trabalhar na pequena vila italiana, em que morava. Certo dia, ele resolveu talhar um menino na madeira. Quando terminou disse: “Serás o filho que nunca tive e vou chamar-te, Pinóquio”.

No anoitecer, uma fada madrinha apareceu na oficina de Gepeto e acabou encontrando o boneco de madeira. Ao tocar em Pinóquio, disse: “Vou dar-te a vida, mas deves ser sempre bom e honesto”. Pela manhã, o carpinteiro acordou e chegando à carpintaria viu que seu sonho tinha sido realizado. Pinóquio havia se tornado um boneco vivo, mas cada vez que mentia seu nariz aumentava de tamanho. Hoje, não é estranho ver alguns pais dizendo aos filhos que se mentirem terão o mesmo fim: o nariz crescido.

Ao falarmos de mito de Pinóquio nos vem à memória dia da mentira, celebrado popularmente na data de hoje. Este surgiu em 1564, quando o Rei Carlo IX, determinou que, na França, o Ano Novo seria celebrado apenas no dia 01 de janeiro. Antes a comemoração acontecia por dias seguidos, de 25 de março a 01 de abril. O objetivo do monarca era aplicar o calendário gregoriano a todos os franceses. Aqueles que resistiram à mudança foram chamados de ‘bobos de abril’, sendo bastante caçoados na época.

Por mais que seja uma data, marcada por brincadeiras e pegadinhas entre amigos, é válido pensar um pouco sobre o caráter real do mentir. Algo que vai além de qualquer divertimento. A mentira não é uma distração ou um passatempo. Do contrário, é uma conduta pela qual a pessoa engana a outra, de forma intencional, fantasiando o verdadeiro, quando já sabe que ele é falso.

Fora os casos involuntários de mitomania, em que o desequilíbrio psicológico leva a pessoa a dizer inverdades sem perceber, a mentira tem um propósito: conduzir ao erro, desvirtuando a verdade das palavras, gerando os pecados da língua. “Meus irmãos, não queirais todos ser mestres, pois sabeis que estamos sujeitos a julgamento mais severo. Todos nós tropeçamos em muitas coisas. Aquele que não peca no uso da língua é um homem perfeito, capaz de refrear o corpo todo. Ora, também a língua é um fogo! É o universo da malícia! Está entre os nossos membros contaminando o corpo todo e pondo em chamas as rodas da vida. Com ela bendizemos o Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos as pessoas, feitas à imagem de Deus. Da mesma boca saem bênção e maldição. Ora, meus irmãos, não convém que seja assim” (Tg 3,1-2.6.9-10).

Por mais que não haja justificativas para o ato de mentir, percebemos que determinadas pessoas o fazem quando elogiam alguém, apenas para agradar; quando temem ser prejudicadas de alguma forma ou quando se sentem desvalorizadas e querem projetar uma imagem irreal. A mentira também é utilizada nas ocasiões em que o foco é se beneficiar à custa da dor alheia.

Talvez, o grande problema não esteja somente na mentira, mas no modo como ela rompe com o vínculo da confiança: a base de todas as relações! Perde-se a fé depositada em alguém. Já não há espaço para a convivência familiar e muito menos partilha de vida. É estabelecida uma ferida existencial. Parafraseando, é como acontece com o papel, uma vez amassado, fica difícil fazê-lo voltar ao normal. Só pela fé.

A mentira gera peso na consciência. A alma é invadida pelo sentimento de culpa. Fica-se inseguro ao acreditar nas próprias inverdades. Cria-se uma ruptura entre ‘palavras’ e ‘atitudes’. Portanto, busquemos o dom da verdade e não caiamos nas armadilhas da mentira. Tragamos no comportamento o selo da transparência e aprendamos com Jesus: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (Jo 8,31-32). Deixemos Pinóquio somente na literatura, para não atualizarmos sua falha no presente.

AOS OLHOS DO MUNDO, SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ!

março 25, 2012 on 8:22 am | In Pe. Robson | 6 Comentários

Sirvo de uma saudosa expressão do teólogo suíço, Hans Urs von Balthasar para intitular o presente artigo. De bom grado, pondero que, de agora em diante, a ‘dimensão do amor’ será enfocada a partir das ‘esferas do sensível’.

Em alguns ambientes a sensibilidade é vista como uma característica, puramente, feminina, ainda mais pelo equívoco de que a figura masculina é privada de emoções, quando, na verdade, não o é. Existe uma ideia preconceituosa de que os homens devem ser brutos, matutos e toscos. Algo totalmente desnecessário em uma sociedade que valoriza as experiências nela vivenciadas.

Muitas vezes, a sensibilidade é interpretada como uma ameaça ao masculino, ao ser confundida com meiguice e delicadeza: particularidades mais aproximadas às mulheres. O homem pode demonstrar afeto, dedicar-se a uma causa, amar sem esperar algo em troca, conceder presentes, se preocupar com os outros, ter atitudes acolhedoras – sem deixar de ser masculino por isso. Não tenhamos insegurança de ser o que somos na essência.

A sensibilidade é atributo próprio de toda pessoa, seja homem, seja mulher. Nascemos sensíveis! Desde o ventre materno a criança já é capaz de sentir o mundo a sua volta. Processo natural que é plenificado com a formação do sistema nervoso. Ela é um organismo vivo. Portanto, tem facilidade para distinguir os cenários de vida e os de morte em seu entorno. Sabe se é bem-vinda e amada pelos pais ou se é recusada. Infelizmente, há vários casos de abortos espontâneos devido à rejeição ao bebê em desenvolvimento.

Muito além dos cinco sentidos, a sensibilidade envolve todo o nosso corpo, abarcando o campo dos sentimentos. Junto a ela estão as emoções e o que experimentamos no dia a dia. O termômetro da sensibilidade é a compaixão. Quando compreendemos a dor do outro nos tornamos sensíveis ao seu sofrimento. Não permanecemos calados. Tornamo-nos a voz dos sem vozes!

Se nosso coração se compadece quando vê uma criança passando fome; se sentimos saudade no momento em que um amigo vai para o exterior à procura de trabalho; se choramos pela perda de um ente querido; se lamentamos os desastres climáticos mundo afora, ao assistir o jornal ou ao acessar um site de notícias; se procuramos ir ao encontro dos mais desprovidos, oferecendo a ajuda necessária: é garantia de que o dom da sensibilidade ainda vive entre nós! Eis o sinal de que nos compadecemos frente às fatalidades da existência e tratamos de amenizá-las, quando não nos é possível levar a solução de imediato.

Só fazemos o bem pelo fato de tocarmos as feridas alheias e descobrirmos quão grande é a sua dor. Colocar-se no lugar do outro, calçar as sandálias de seus sofrimentos é o melhor caminho para nos tornamos mais humanos. Na verdade, é este o objetivo da sensibilidade: humanizar-nos! Há pessoas que sentem orgulho por falar mal dos outros, por mentir, por se beneficiar de algo que não lhe pertence. Quanto mais vantagens recebem, mais querem ter. Pensam somente em si e acabam se esquecendo dos mais próximos, a começar por aqueles que estão dentro de casa. Aqui nasce o câncer da insensibilidade.

Aquele que coloca o amor do Pai como fundamento da vida é uma pessoa livre, feliz e libertadora. O amor transforma o coração de pedra em vida que pulsa pelos outros. Não nos sentimos melhor quando agimos com sensibilidade. Pelo contrário, às vezes nos sentimos até pior, por não ter todas as condições que gostaríamos para ajudar aqueles que mais necessitam. Quem é sensível sai de si e vai ao encontro de Deus no serviço desinteressado aos irmãos conhecidos e, sobretudo, desconhecidos. O amor não escolhe endereços privilegiados, ele simplesmente age em favor do mais necessitado.

Volto a insistir: se quisermos ser fiéis ao Evangelho, devemos existir para as mesmas pessoas que Jesus existiu e por elas deu a vida! Ele perdoou a mulher adúltera, acolheu as lágrimas de uma prostituta arrependida, curou os excluídos leprosos e comeu entre os cobradores de impostos: “Estando Jesus à mesa em casa de Mateus, muitos cobradores de impostos e pecadores foram e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos” (Mt 9,10). Olhando para a vida de Jesus é importante reconhecer se estamos sendo leais à Sua missão ou se estamos exercendo somente aquilo que nos agrada.

Jamais deixemos de lado o dom da sensibilidade. Que ele não caia no esquecimento nem se mantenha exilado de nossas atitudes. No amor do Pai, façamos de nossas casas, locais de acolhida e diálogo. Ajamos com esforço para que o ambiente de trabalho e de estudo, até onde depender de nós, seja um espaço para o cultivo da fraternidade e do respeito. Tenhamos cuidado para com as pessoas e zelo por suas histórias, que são sagradas. Aprendamos a amar com Jesus, o Bom Samaritano, que nos humaniza!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
Twitter: @padrerobson
www.paieterno.com.br

RETORNAR A EXPERIÊNCIA DA FÉ!

março 18, 2012 on 9:37 am | In Pe. Robson | 4 Comentários

Hoje, há muitos discursos sobre Deus e pouca experiência de Deus. Ambas estão conectadas e devem permanecer unidas, mas são diferentes no modo de agir. A primeira vem do falar, a segunda é proveniente do viver. Uma reflete o conhecimento intelectual, já a outra também é conhecimento, porém obtido pelo aprendizado da fé. Enquanto uma age no campo racional, a seguinte atua em nível de sentimentos que dão sentido à vida.

O discurso responde ‘o porquê’ da fé. A experiência concede significado ao que cremos. O discurso evangeliza nossas palavras. A experiência converte o nosso coração. Uma não deveria operar sem a outra. Mesmo assim, observa-se que há discursos bem corretos na teologia, mas fadados à ineficácia, pois são desprovidos de experiência. Fala-se de teorias e exila-se a prática.

Em meio às grandes dificuldades da vida a pessoa é sustentada pela experiência de Deus. O discurso é consequência. Falamos daquilo que acreditamos e, principalmente, do que vivenciamos. Sabemos que os problemas são fatos constantes da existência. Dificilmente estaremos longe deles ou seremos privados de sua manifestação.

Problema é tudo aquilo que nos faz sofrer, que mina nossas forças, que suscita desesperança em nosso ser, que provoca raiva, ódio e bate-bocas dentro de casa e até mesmo no ambiente de trabalho. São obstáculos a superar! Quando não solucionado, ele só tende a gerar sofrimento em cima de sofrimento. Em alguns casos, o problema desenvolve a péssima característica de fugir do nosso controle e isso, muitas vezes, aborrece a alma, ocasionando as mais dolorosas mágoas, bem como ressentimentos.

A situação ainda se agrava quando acreditamos que os problemas são enviados pelo Pai Eterno. Imagina-se um Deus justiceiro e castigador, que paga o mal com o mal e, acaba-se esquecendo de que Sua essência é puro amor. Na condição de Pai, Deus nunca envia dificuldades e aflições aos seus filhos. Ele não pode nem quer o mal. A Sua natureza paterna o impede de despachar: sejam tormentos, sejam agonias. O Pai só quer o nosso bem e, sobretudo, se esforça para que tenhamos a felicidade em plenitude.

No cotidiano e em meio aos problemas tem algumas pessoas que se desesperam e acham que o sentido para a vida se perdeu. Há contextos em que as lágrimas tornam-se recorrentes, abrindo espaço para todo tipo de depressão. Deixa-se de lado a experiência da fé e sucumbe-se na experiência do desamparo.

Em um cenário assim alguns se sentem abandonados pelo Pai, como se Ele os estivesse esquecido: “Sião dizia: Javé, me abandonou, o Senhor me esqueceu! Mas pode a mãe se esquecer do seu bebê? Pode ela deixar de ter amor pelo filho de suas entranhas? Ainda que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você. Veja! Eu tatuei você na palma da minha mão; suas muralhas estão sempre diante de mim. Juro por minha vida!” (Is 49, 14-17). O Pai jamais esquecerá aquele que saiu de Si. Somos componentes da vida Divina que habita em nosso eu interior. Se Ele se esquecesse de nós estaria esquecendo-se de Si mesmo, pois somos partes de Deus.

À medida que nos deixamos conduzir pela experiência da fé os problemas deixam de ser o fundamento de nossa vida, pois um só é o fundamento: o Divino Pai Eterno! Nele é possível sorrir novamente, crendo que o problema não é maior que o nosso Deus! “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus” (Rm 8,18-19).

A fé nos convida a não conceder aos problemas mais atenção do que eles solicitam. Junto aos problemas está a capacidade de resolvê-los. É importante reconhecer que não há solução para tudo, assim como reza o ditado popular: “O que não tem solução, resolvido está”.

O fato de aceitar determinadas realidades nos faz gastar menos energia e reduzir o sofrimento. ‘Aceitação’ é diferente de ‘comodismo’. Um é sinal de maturidade, ao passo que o outro gera desistência. “Somos atribulados por todos os lados, mas não desanimamos; somos postos em extrema dificuldade, mas não somos vencidos por nenhum obstáculo; somos perseguidos, mas não abandonados; prostrados por terra, mas não aniquilados” (II Cor 4,7-9).

Na oração, o Pai Eterno nos ensina que a vida é muito maior que nossos problemas. Portanto, busquemos a experiência de Deus, para que nosso discurso seja fruto daquilo que vivenciamos. Assim, falaremos com conhecimento de causa e não de emaranhado de estatísticas. A experiência não nos infantiliza, pelo contrário, nos torna adultos na fé. Estejamos preparados para os desafios que a espiritualidade cristã nos provoca e convoca sempre!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
Twitter: @padrerobson
www.paieterno.com.br

PARTINDO RUMO À FONTE!

março 4, 2012 on 10:03 am | In Pe. Robson | 12 Comentários

A existência passa muito rápido. Ela segue as diretrizes traçadas pelo tempo. Seu relógio parece ser acelerado cada dia mais. Naturalmente nascemos, crescemos e morremos. Sem que percebamos o tempo vai se consumindo, como água diluída em nossas mãos. Não há como detê-lo. Ontem estávamos celebrando o Natal, agora já estamos em março, preparando a Quaresma, em vista da Páscoa! Assim é a vida.

Em uma sociedade marcada pela era digital, basta olhar as fotos envelhecidas para nos recordar da velocidade apressada do tempo: retratos de rostos antigos, mais parecidos com pinturas feitas à mão, fixados nas paredes, com os nossos amados avós; álbum de casamento, marcado por amigos e familiares; fotos de formatura, narrando as nossas conquistas; imagens de confraternizações e passeios significativos nas redes sociais. É o tempo sendo sacralizado.

As fotografias são o registro datado de nossa história. É como se ela fosse congelada, em fração de segundos e voltasse ligeiramente ao cursor. Impossível pará-la. Só nos é permitido dar crédito à sua memória. Pelos retratos de um simples flash contemplamos o passado e voltamos a viver as suas emoções no presente. Como é bom olhar para os fatos ocorridos com o coração agradecido e sempre pedir perdão pelas falhas cometidas. Perdoar a nós mesmos e também os que feriram nossa alma.

Só o tempo para dizer se estamos certos ou agimos de forma errada. E a vida segue seu caminho. Pessoas entram em nossa história e, logo em seguida, não estão mais presentes. Outras se mantêm um pouco mais, porém nos são tiradas quando menos esperamos. É a morte dos nossos queridos e também de uma parte de nós. Morremos com aqueles que partem, pois depositamos um pouco de nossa essência em cada coração que nos é conhecido.

Hoje, estamos em um lugar, realizamos planos e amanhã somos convocados a assumir novos desafios. Temos nos tornado indivíduos que não param. Difícil cair na rotina em um mundo tão agitado. É tanto movimento que acabamos por nos perder. E aqui está o problema do tempo, quando ficamos perdidos de nós e daqueles que amamos.

Há alguns que o vivem mal. Não dão atenção merecida aos problemas que dependem somente deles para serem solucionados. Trocam de pessoas como se substitui um objeto quebrado por outro. Não se tem mais tempo a perder consertando relacionamentos. Deixam de lado a dimensão do cuidado e partem para a aventura seguinte. “Que venha o próximo ou a próxima” é o pensamento que rege algumas pessoas. O importante é viver o momento. Mas, nem só de temporadas vive o humano. Quando o coração cria raízes chegamos à lucidez da revisão de vida. E aí teremos que nos enfrentar como num espelho. Veremos nossos comportamentos sendo refletivos diante de nós.

Fico a pensar no quanto desperdiçamos tempo. Gastamos energia com situações que não mereciam tanto nervosismo. Ficamos chateados, nos deixamos dominar pelo desânimo, nos mantemos atados às mágoas. Basta ficar em um atendimento para perceber como as pessoas se irritam com ou sem razão. Independente do ocorrido, viver com os nervos a flor da pele não compensa. Só nos prejudica a alma, inclusive criando problemas cardíacos. Nem todos passam por isso, mas há casos de pressão alta provocados pela raiva contínua.

As palavras mais atuais nos dicionários da vida têm sido: afobação, ansiedade, inquietude, preocupação, pânico, abatimento e depressão. Todas vêm à tona quando falta esperança. Por isto, é tão importante olhar a própria história com os olhos de quem crê. Não para nos iludirmos, mas para vermos a existência em profundidade, sem sermos superficiais. Aquele que tem fé é capaz de colocar Deus como o eixo que fundamenta o relógio de sua vida. Mesmo na dúvida, continua crendo; ao contrário de quem vive de confianças passageiras. Quem confia segue adiante.

Respeitemos o tempo, pois o Pai Eterno o plenificou quando inseriu seu Filho amado na história. Por isto, unidos à pessoa de Jesus, conduzamos nossa vida com a dignidade que ela merece. Demos depoimento Daquele que cremos, não somente por palavras, mas com atitudes concretas. Ninguém irá crer sem ver nossas obras. Se não fazemos diferença, assumindo a evangelização e sinalizando a vida para Deus há algum distanciamento do Evangelho que professamos. Fé e prática são lados de uma mesma espada.

Demos testemunho do tempo presente, para que assim ele também dê testemunho de nós. Assim, quando chegarmos ao término desta existência e partirmos rumo à Fonte de nossa vida, que é Deus, seguiremos com a consciência do dever cumprido, sem obrigações, mas por escolha livre e responsável!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.
Twitter: @padrerobson
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