“Eis-me aqui, envia-me a mim”

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“´Quem hei de enviar? Quem irá por nós?´, ao que respondi: ´Eis-me aqui, envia-me a mim´” (Isaías 6,8).

Caros confrades, graça e paz da parte de Deus! Atraídos ao Pai, consagrados no Filho, enviados pelo Espírito e inspirados nas palavras do livro do profeta Isaías, iniciamos outro quadriênio, com um novo governo, em nossa apreciada Província de Goiás.

No dia 11 de novembro de 2014, alguns dias após a nossa eleição, tivemos uma primeira reunião do Conselho, acontecida às 8h30, no Escritório Central da Província. Mediados pela fé e alicerçados na esperança, começamos em clima de ação de graças, cientes de que é a oração que sustenta a nossa missão. Cada um pôde falar de suas expectativas e anseios para este governo que se principia e para o futuro da Província. Fez-se menção também às nossas fragilidades que, por vezes, acabam enfraquecendo a vida missionária e as necessidades do nosso grupo apostólico, para fortalecer a evangelização que nos foi confiada pela Igreja. Tudo de maneira muito madura, centrada e responsável. Todos desejosos de colaborar para que o novo governo, neste quadriênio, traga, ainda mais, força e determinação frente aos variados desafios da missão.

O profeta, como vimos acima, estava na presença do Senhor e atento às Suas palavras. Naquela ocasião, ouviu o apelo de Deus que ressoava no interior da alma missionária, a dizer: “Quem hei de enviar? Quem irá por nós?” As palavras do Senhor não foram dirigidas, única e exclusivamente ao profeta Isaías (1,1-39,7), como vemos, com certa frequência, em outras situações… Foi diferente… Trata-se de um chamado geral, para todos os que, de coração livre e desimpedido, aceitam o desafio da radicalidade da vida profética para um determinado momento da história. Foi Isaías quem ouviu e se dispôs, com prontidão e sem relutância: “Eis-me aqui, envia- -me a mim”.

Realmente não hesitou em responder! Não sabia nem mesmo qual era a mensagem e, ainda assim, despojado de condicionamentos, apresentou-se para anunciá-la. Não quis saber se havia salário, quanto ganharia nesta empreitada, se teria prejuízos para sua vida pessoal ou familiar na missão assumida. Seu espírito, desprovido de posses e fiel ao apostolado é um ótimo exemplo para todos nós, Missionários Redentoristas. Um dia ouvimos o apelo de Deus, escutamos o grito dos pobres a tocar nossos tímpanos e nos apresentamos ao Senhor para servi-Lo, recebendo o mandato de pregar o Evangelho do Reino, proclamando-o largamente ao mundo inteiro (Cf. Mt24,14).

A capacidade de escutar o chamado da fé, obedecendo livremente à palavra ouvida, frente à primazia da vontade Divina, depende de cada um de nós, da maturidade espiritual cultivada e conquistada, do caminho que já percorremos até aqui, de nossa consciência missionária e da graça que nos fortalece na gratuidade. De sobremaneira, há de se contar com a intensidade do nosso afeto por Deus e do modo como correspondemos ao Seu amor, nos colocando a serviço da missão e jamais nos servindo dela, em benefício próprio. Depende também de como estão nossos ouvidos interiores, inclusive para que estejam aptos a escutar o Evangelho, deixando de lado os ruídos que dispersam a alma e empobrecem o apostolado. Somente por esta via é possível permanecer cativo ao Pai, sem deixar de ser fiel a si e à missão. Diante disso é preciso que cada um questione-se sempre: estou aberto e disponível para ouvir com grandeza ou “entupido” no egoísmo e na conveniência dos que professam com os lábios, mas têm o coração distante do Senhor?

Os que ouvem a palavra do Senhor e a obedecem vivem também sob sua bênção, graça e proteção. Não devemos ter medo de ouvir Sua palavra que desafia a nossa vida e nos move à missão: “Porque este mandamento, que hoje te ordeno, não é excessivo para ti, nem está fora do teu alcance. Ele não está no céu para que fiques dizendo: ´Quem subiria por nós até o céu para trazê-lo a nós, para que possamos ouvi-lo e pô-lo em prática?´ E não está além no além-mar para que fiques dizendo: ´Quem atravessaria o mar por nós, para trazê-lo a nós, para que possamos ouvi-lo e pô-lo em prática?´ Sim, porque a palavra está muito perto de ti: está na tua boca e no teu coração para que a ponhas em prática” (Dt 30,11-14).

O serviço eficaz a Deus depende dos nossos ouvidos cheios de prontidão, mas também do nosso coração amadurecido e desejoso de amar sem fronteiras, sem segundas intenções e sem medianos interesses. O chamado de Deus entra no coração ou é rechaçado! O convite é que adentre e permaneça no coração. A seara está madura para a colheita e poucos são aqueles que, de fato, estão dispostos e disponíveis, voluntariamente, para a labuta. Diante dos desafios deste mundo, para nós que cremos, é como se o Senhor  gritasse a todos e a cada um, em especial: “Desentope os ouvidos, eu preciso de você! Você é um escolhido! Disponha-se!”.

O chamado é para todos e a necessidade de proclamadores das boas-novas é urgente! Quem se dispõe a ouvir e atender ao chamado de Deus tem o privilégio de partilhar, com Ele, de um projeto sublime e de ver a transformação de uma pessoa, de uma cidade ou até mesmo de uma nação. Faz valer a pena o esforço quando aceitamos os desafios da vida religiosa e nos fazemos instrumentos do Senhor, dia após dia!

Quero hoje, louvar, bendizer, adorar, glorificar e exaltar Aquele que é Nosso Pai pela forma como nos amou, sobretudo, ao nos dar o Seu principal tesouro, a Sua maior riqueza: Seu Filho Unigênito, que se fez um de nós. Esse Deus que não nos abandonou e não nos deixa órfãos. Ele nos dá, nos comunica seu Espírito, para que continuemos nossa missão, como Igreja do Senhor, como missionários da Sua Redenção. Agradeçamos ao Divino Pai Eterno que inspirou Afonso a começar um caminho novo e cheio de audácia, em uma realidade eclesial acomodada e sem muito sentido… E que continua nos chamando e nos enviando ao desafio de sermos, em nome da Igreja e da Congregação do Santíssimo Redentor, luz e bênçãos por onde passarmos.

O alicerce que nos sustenta é o Santíssimo Redentor. É ele mesmo quem diz: “Deixem-se redimir e só depois disso anunciem a Redenção”. Nada melhor que o redimido para falar do Redentor. Se quisermos avançar, na missão, devemos manter os olhos sempre fixos neste fundamento, pois é Ele e somente Ele, quem nos mantém em pé e seguros! Ninguém deve alimentar um pensamento ou sentimento diferente.

Habitar na bênção significa: viver no selo de Deus, se nortear no Espírito d’Ele e de acordo com Seus desígnios. Todos nós nascemos pelas bênçãos que vêm do coração de Deus, para aquilo que vamos fazer e realizar, para o que nos foi, está sendo e ainda será confiado. Neste sentido, somos chamados a nos conformar, buscando experimentar Cristo e a força da Sua ressurreição… Estar em plena comunhão de vontades… Mesmo sabendo que não somos perfeitos, precisamos desejar a perfeição, correr ao encontro dela, lutar por ela… Afinal, o Redentor nos alcançou e nos escolheu…

Como irmão, servo e animador desta unidade missionária de nossa Congregação, exorto para que cada confrade possa louvar ao Pai Eterno, pelo dom da vida redentorista. Você pertence à santidade da Igreja. Que renovemos, hoje, as intenções e revigoremos os sentimentos que nos inspiram à doação ao Senhor, dentro de uma realidade evangelicamente adequada e teologicamente crível. Que não percamos a graça, que não escondamos o tesouro, que é Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Sejamos, a exemplo de Maria, a Mãe do Belo Amor, nosso Perpétuo Socorro, sempre mais, templo de Deus. Reconheçamos a nossa indignidade, clamemos por misericórdia e deixemos que Ele purifique os nossos lábios, regenere e evangelize nossos corações, abra os nossos ouvidos para escutarmos o apelo do céu e nos capacite para respondermos profeticamente ao chamado, dizendo: “Eis-me aqui, Senhor, envia- -me a mim”.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Superior Provincial dos Redentoristas
de Goiás e Presidente Fundador da Afipe

Feliz Ano Novo!

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Enunciado muito utilizado neste período do ano. Para alguns, uma frase rica de significados, valores. Principalmente, quando dita a partir de um coração
bondoso, generoso. Um coração que ama profundamente, e sem restrições, deseja o bem para a pessoa amada, querida. Para outros, uma formalidade vazia de sentido. Em todo caso, consciente ou não, sua empregabilidade expressa um sonho, um sentimento, um desejo. Na melhor das hipóteses, um incentivo que visa transferir a outrem a responsabilidade que conduz a um novo recomeço. Um novo desafio.

“Começar é difícil. Recomeçar é quase impossível.”Cresci ouvindo esta frase. Chegou 2015. As festividades de Natal, Fim de Ano e Réveillon ficaram para trás. Agora é hora de voltar à vida real. De assumir as tarefas nossas de cada dia. Daí que um programa de vida articulado, pensado, planejado e bem feito, pode ajudar a superar desafios e fracassos anteriores. Bem como valorizar esforços, consolidar conquistas e projetar o futuro. É hora de dar sentido novo e pleno a muitas coisas. Reorganizar a vida de oração, de convivência, de estudo e de trabalho.

É hora de fazer uma boa faxina na casa. Rever planos, traçar metas, estabelecer objetivos. Lançar-se a novos desafios. Alçar voos a novos ares. Explorar terras desconhecidas. Conquistar horizontes navegando outros rios, oceanos e mares. Rever estratégias e não contar somente com as próprias forças. Acreditar e confiar, principalmente, na ação da graça do Divino Pai Eterno em nossa vida.

É tempo oportuno para uma boa faxina no coração. Organizá-lo. Purificá-lo das paixões maldosas, libidinosas, dos desejos e sentimentos duvidosos. Libertar-se de mágoas, rancores e desafetos passados. Pedir o perdão devido e dar o perdão necessário para caminhar juntos outra vez. Fazer o retorno para Deus percebendo em cada pessoa humana, em cada irmão, em cada irmã, o rosto bondoso do Divino Pai Eterno. E tomar consciência de que o coração que foge de Deus abre um abismo insondável dentro do peito onde faz morada. Afasta-se de si mesmo, dos outros, das obras criadas (mundo), e do próprio Deus. Cultiva, fomenta e alimenta o ódio. E, por que cultivar o ódio se há tantas coisas boas neste mundo necessitadas de carinho e ausentes de amor? Portanto, não odiar é a mais sublime forma de amar.

Há ainda uma verdade que precisa ser entendida, assumida. Ou seja, quanto mais dificuldades e obstáculos encontrarmos na subida, mais chances teremos de completar o horizonte lá do alto. Olhemos para o cobrador de impostos, Zaqueu. Ele desejava ardentemente conhecer Jesus e não conseguia por causa da multidão e de sua baixa estatura. Para realizar o sonho de ver Jesus, escalou em um pé de figueira (cf. Lc 19,1-10). Outro bom exemplo é a cura do paralítico de Cafarnaum. Abriram um buraco no telhado para que ele pudesse chegar à sala onde estava Jesus (Mc 2,1-12). Outro exemplo que também não podemos nos esquecer é o da cura da mulher portadora de hemorragia (Mc 5,25-34).

O desânimo paralisa nossa vida. A dúvida neutraliza nossas ações. O medo enfraquece nosso espírito. A falta de fé abre em nós um vazio existencial impreenchível. Os poucos relatos bíblicos acima citados são indicadores para o incentivo à busca do novo que constantemente se apresentem em nossa vida, tendo como fonte de inspiração Jesus de Nazaré, o Cristo Ressuscitado. Agora, em se tratando de Ano Novo, vida nova, não podemos jamais nos esquecer do episódio das Bodas de Caná e ouvir o que Maria tem a nos dizer: “Fazei tudo o que meu Filho vos disser” (Jo 2,5).

Isto é ouvir os apelos de Deus que fala ao nosso coração através das Palavras de seu Filho Jesus. Palavra que liberta, cura e salva a pessoa humana por inteiro. Para fazer tudo novo, de novo, é preciso também dar a tônica nossa vida onde estivermos. Cada lugar neste mundo, seja ele físico ou geográfico, tem a mística e a espiritualidade de quem dele organiza, preserva, cuida.

É também tempo de mudança e revisão de vida, conversão de atitudes. De ouvir o Senhor que nos diz: “Amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei” (Jo 15,12). E ainda, “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Mandamento que não nos é pesado, sofrido, penoso quando vivido à luz do Espírito Santo no seguimento radical a Jesus Redentor, pois “este mandamento, que hoje lhe ordeno, não é muito difícil, nem está fora do seu alcance. Ele não está nos céus, para que você fique perguntando: ‘Quem subirá por nós até o céu para trazê-lo a nós, a fim de que possamos ouvi-lo e colocá-lo em prática?’. Também não está no além-mar, para que você fique perguntando: ‘Quem atravessará por nós o mar, para trazer esse mandamento a nós, a fim de que possamos ouvi-lo e colocá-lo em prática?’. Sim, essa palavra está ao seu alcance: está na sua boca e no seu coração, para que você a coloque em prática” (Dt 30,11-14).

Busquemos, pois, não cair no vazio existencial de palavras soltas e desconexas. E, aprendamos que não nos basta apenas palavras, gestos. É preciso deixar ressoar em nós o convite que o Pai Eterno nos faz ao coração. E buscar a oração, muita oração. Orar e agir. Somente alcançarei o céu, vivendo a plenitude de Deus aqui na terra. Somente alcançarei a plenitude Eterna, vivendo a simplicidade da natureza terrena marcada por situações adversas e contrárias. A dica, então? Use bem as mãos que o Pai Eterno lhe concedeu, “segure firme o arado e não olhe para trás” (Lc 6,69).

Assim sendo: FELIZ ANO NOVO!

Pe. Edinisio Pereira, C.Ss.R.
Reitor do Santuário Basílica
do Divino Pai Eterno

Mãe do Belo Amor

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Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é o título conferido a Maria, Mãe de Jesus, representada em um ícone de estilo Bizantino venerado desde 1865 em Roma, na Igreja de Santo Afonso, dos Missionários Redentoristas.

Vindo da Ilha de Creta, passando pela Igreja de São Mateus, em Roma, durante trezentos anos este ícone foi venerado e reconhecido pelos sinais prodigiosos operados pela fé de muitos devotos da Mãe do Belo Amor, nosso Perpétuo Socorro. Esta devoção se expandiu graças ao trabalho dos Redentoristas que, desde 19 de janeiro de 1866, a pedido do Papa Pio IX, espalham por todas as paróquias e santuários onde atuam, esta importante devoção.

Santo Afonso escreveu um tratado completo sobre o papel de Maria no plano da salvação chamado: “As Glórias de Maria”. Dizia que Maria, por ser tão amada por Deus e corresponder plenamente ao Seu amor, se tornou novo modelo perfeito de vida cristã. Segundo a biografia de Afonso, a devoção a Maria vem desde a sua infância. A ela dedicou sua vida, seu amor e uma grande obra para que pudéssemos, como ele, venerá-la com a mesma intensidade.

Dizia Santo Afonso: “Maria, a cheia de Graça que adianta as nossas orações, ampara-nos nas aflições, protege-nos e dá-nos santas inspirações para vivermos profundamente a caridade. Mais ainda, ela anima e fortalece nos momentos mais difíceis. É fiel defensora dos seus filhos”.

No Brasil, temos diversos santuários onde existem novenas, um estilo popular de rezar e cantar a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, invocando as suas bênçãos pelos objetos, pela água, pelos enfermos e por todas as necessidades das pessoas.

Em Campinas, Goiânia (GO), na tradicional “Campininhas” onde chegaram os primeiros Missionários Redentoristas vindos da Alemanha, cresce cada vez mais esta devoção. A cada terça-feira, se deslocam milhares de fiéis de Goiânia e arredores para agradecerem graças alcançadas e pedirem benefícios em oração e súplica a Mãe de Deus e nossa mãe.

Hoje, a Matriz e Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro de Campinas é um grande centro de devoção onde todos os devotos visitam, rezam e buscam alcançar as graças necessárias. Nas suas angústias, sofrimentos, alegrias e tantas necessidades querem se aproximar do seu Filho Jesus, o Redentor do mundo onde encontramos a salvação e a vida plena.

Somos agradecidos a Deus por termos no Centro-Oeste um santuário que acolhe os devotos de Maria, em seu Perpétuo Socorro. Ao mesmo tempo, pedimos ao Divino Pai Eterno as graças necessárias para que o mesmo seja conhecido a todos os povos do Brasil e do mundo, oferecendo cada vez mais melhores condições para acolher bem a todos que vão para rezar, agradecer, pedir e contemplar em Maria o Perpétuo Socorro, recebendo pela fé e oração todos os benefícios pedidos.

Rezemos com Santo Afonso: “Toda sois formosa e em vós não há mancha. Ó Mãe puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus! Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria. Sois tão bela aos olhos do Senhor. Olhai-me e compadecei-vos de mim e curai-me. Oh belo imã dos corações, atraí para vós, também, este meu coração. Tende piedade de mim e rogai a meu favor. Amém!” Que a Mãe do Belo Amor, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, abençoe a todos!

Pe. João Otávio Martins, C.Ss.R.
Missionário Redentorista

O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós!

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“No príncípio, Deus criou o céu e a terra. Ora a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1,1-2). “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito” (Jo 1,1-3). Se o coração do Gênesis é a imagem do Deus que salva e cria, o coração do Evangelho de João é o testemunho da encarnação histórica de Jesus de Nazaré. Acredita-se que a intenção do prólogo da comunidade joanina é a atualização do primeiro capítulo do Livro do Gênesis. Tanto Gênesis 1 quanto João 1 começam com a palavra ‘no princípio’. Se o primeiro utiliza o termo hebraico B’reshit, o segundo falará a partir da expressão grega En arché. Trata-se da afirmação de que em Cristo se dá um novo Gênesis, uma nova origem, uma nova criação, uma nova humanidade. A palavra criadora do Gênesis torna-se criatura em João.

Etimologicamente, o termo ‘encarnação’ é proveniente do latim clássico in-carnare. É a manifestação mais crível de que um dia Deus se tornou carne em nossa carne, sangue em nosso sangue, história de nossa história e vida em nossa vida.

Diante da encarnação podemos afirmar que “nada do que é humano é estranho a Deus” (Montaigne). Ele havia criado tudo, inclusive o humano, mas nunca havia sido humano. Deus se torna humano em Jesus. Por isso que diante da encarnação está a história do Deus que se tornou Humano, para que o humano se torne divino. “Divinando- se o homem é mais homem. Humanando- se Deus é mais Deus para nós” (Leonardo Boff). Na encarnação, o Filho de Deus se apresenta como o encontro entre o Sagrado e o Profano. Eis o Deus Redentor!

Vale ressaltar que o movimento do Encarnado na história não foi uma aparição miraculosa ou fantástica, mas, sobretudo, a concretude do amor em carne. O amor do Pai torna-se carne (sarx). Por isso, Jesus é Sacramento do Pai Eterno. Não estamos defrontes a um Deus mágico, mas perante um Deus que teve que aprender a ser humano. Um Deus que “não responde, pergunta. Não soluciona, põe em conflito. Não facilita, dificulta. Um Deus que não gera meninos, mas faz adultos” (Inácio Larrañaga).

Jesus de Nazaré não assume a história a partir de fora, mas vem de dentro. Não assume um corpo emprestado, no qual habita o seu espírito. Pelo contrário, esvazia-se de sua condição divina para tornar-se plenamente humano.

“Jesus nasceu em uma pátria insignificante, dentro de uma vila interiorana. Não sabia grego nem latim, as grandes línguas da época. Falava um dialeto – o aramaico. Jesus sentiu a opressão, conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo Lázaro, a alegria da amizade, a dor da traição, a tristeza, a tentação, a raiva, o pavor da morte e passou pela noite escura do abandono de Deus” (Leonardo Boff).

Diante do presépio está a incidência do Deus que busca o homem e do homem que busca Deus. A pessoa humana chega a Deus porque Deus chega primeiro à pessoa humana. A iniciativa sempre será do Divino. O atemporal entra na ordem do temporal. O Infinito conhece a finitude do humano. O Onisciente, o Onipresente e o Onipotente se coloca como pequeno e frágil.

Devemos olhar e admirar o Jesus criança que nasce na manjedoura da pobreza humilhante, porque não encontrou lugar no coração da humanidade. Jesus vem como criança para nos mostrar que Deus não nos ameaça ou condena. E assim a encarnação vai sendo atualizada na história e não se torna um fato do passado.

“Quando o pobre que pouco tem ainda reparte: o verbo se faz carne novamente. Quando o sedento dá água e o faminto dá o pão: o verbo se faz carne novamente. Quando o fraco fortalece o impotente, quando se diz a verdade onde reina a mentira, quando se ama onde há ódio, quando se prega a paz onde vigora a guerra: o verbo se faz carne novamente” (Leonardo Boff).

Desta forma, encarnação nos fornece a chave de leitura para compreendermos muitas questões não respondidas atualmente. As pessoas muitas vezes perguntam: por que a dor? Qual o sentido do sofrimento? Por que a humilhação, a fome e a miséria? “As pessoas perguntavam e Deus se silenciava. Na encarnação Deus responde e a pessoa se silencia. Deus não responde ao porquê do sofrimento. Ele sofre junto. Deus não responde ao porquê da dor. Ele se faz homem das dores. Deus não responde ao porquê da humilhação. Ele se humilha” (Leonardo Boff).

Deus não assiste a tragédia do humano. Ele entra na história e se encarna nela. Um Deus Emanuel – Deus Conosco. Companheiro de Jornada e irmão da história. Diante das decepções da vida e das frustrações do cotidiano nunca nos esqueçamos de que o verbo se fez carne e habitou entre nós por amor!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

A luz vem ao mundo

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O tempo litúrgico do Advento nos prepara para a vinda do Senhor na celebração do Natal. É um encontro pessoal com Jesus Cristo. Ele vem, pela fé, renascer em nossos corações. O encontro com Jesus ilumina e alegra a nossa vida e nos devolve a esperança por um futuro bom.

Que cada um de nós esteja vigilante e em atitude de oração para acolher a Luz do alto que vem nos visitar: “Deus é luz e nele não há treva alguma. Se caminhamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros” (1Jo 1,5.7). Portanto, quem acolhe a Luz, torna-se livre de toda rixa, contenda e ciúme, busca pacificar o coração para viver em comunhão com os irmãos. E quando é difícil olhar nos olhos de algum irmão ou quando estamos feridos, podemos confiar e esperar que o amor de Deus coloque a nossa cabeça e o nosso coração no eixo. Nunca podemos esquecer que Deus é Pai e sempre vem ao nosso encontro com amor eterno para nos perdoar e nos socorrer em nossas fraquezas. Por meio do Menino Jesus, o Pai Eterno ilumina a nossa vida e revela o seu amor por nós: “Eu vim ao mundo como luz, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas” (Jo 12,46).

Jesus Cristo ilumina a nossa vida e restaura em nós a alegre esperança para sermos, com ele, luz e vida para o mundo. Não deixemos que as dificuldades do momento tirem o brilho do amor de Deus que há em nós. Cada um de nós é maior que os problemas que possa ter e é justamente nas horas difíceis que temos a oportunidade de testemunhar ao mundo a razão da nossa fé e da nossa esperança. Quem encontra Cristo encontrou a alegria de viver. Conservemos no coração o mandamento do amor para que a nossa alegria seja plena.

O amor é que ilumina e alegra a vida. O verdadeiro amor se revela nas atitudes. Quem ama como Jesus amou não discrimina pessoa alguma. O amor não faz justiça com as próprias mãos, isto é, não aceita a “lei do olho por olho, dente por dente”. Quem ama perdoa, reparte o pão e paga o mal com o bem. Se amamos, as portas do céu se abrem para nós. Jesus é a maior expressão do amor do Pai por nós. Ele veio ao mundo para nos ensinar a amar porque o amor é a única força que liberta e salva. Que a ternura do Menino Jesus desperte em nós o amor aos irmãos para vivermos alegres e iluminados.

Feliz e abençoado Natal para todos!

Pe. Fábio B. da Costa, C.Ss.R.
Provincial dos Redentoristas de Goiás

Afinal de contas, vale a pena ter esperança?

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Nos tempos hodiernos vivemos imer­sos em uma realidade conturbada! Há todos os instantes somos asso­lados por depoimentos, notícias e situações que testemunham à construção de uma so­ciedade consumista, ególatra e hedonista. Em primeiro lugar o que vale é o consumo, portanto o único interesse presente é consu­mir a própria vida e a dos demais, seguin­do os moldes da mentalidade neocapitalista. Assim, é criado um sistema onde cada um vale aquilo que consome ou produz. As pes­soas passam a ter valorização pelo que tem ou fazem e não pelo que são enquanto filhos de Deus. O consumo confere existência.

O Cogito ergo sum de René Descartes dizia: “Penso, logo existo”, já o consumis­mo atual diz: “Consumo, logo sou”. Será que é possível inculcar valores eternos em uma mentalidade supérflua e passagei­ra? Vale a pena falar de esperança já aqui nesta terra diante da compulsão hiperbó­lica pelo consumo? Até que ponto o con­sumismo não está orientando, guiando e conduzindo a nossa existência como um vírus dispendioso na subjetivação do eu?

Mais adiante vemos configurar-se no cená­rio da existência uma espécie de individualis­mo ultramoderno. Trata-se da doutrina segun­do a qual a sociedade, a economia, a religião e até mesmo Deus, passam a ser analisados em profunda consonância com os critérios do eu individualista. Esta situação também entrou de forma sutil na caminhada tempo­ral da família humana. Em certos contextos sociais fica visivelmente claro alguns dizeres como: “meu carro”, “meu lugar para sentar”, “meu pedaço de carne predileto”, “meu pro­grama de TV”, “minhas manias”, “meu ho­rário”, “minhas vontades”, entre outros. Não há mais a passagem evangélica do “eu” ao “nós”, mas, pelo contrário, do “nós” ao “eu”.

Assim, vamos criando uma vida intimista, cujo resultado é a penhora de toda e qualquer esperança. Não se fala mais de interesses ou imagens coletivas, pois até mesmo no comu­nitário a única bandeira hasteada é exclusiva­mente a do “eu”. Por conseguinte, acabamos por confeccionar uma fé, uma Igreja, uma doutrina, um deus que é nada mais, nada me­nos que a projeção do nosso próprio “eu”.

Vale ressaltar que o individualista não tem a coragem de se visitar e nem mesmo de conhecer sua história existencial, mas somente de se satisfazer. Para o eu indivi­dualista não há sentido nenhum em alicerçar a vida na prática da esperança. Não é nada agradável dispor um pouco de tempo para ajudar na construção de um mundo me­lhor. Não se faz presente em seus compro­missos pensar ou articular meios suficien­tes para a confecção de sistemas dignos de moradia e emprego, pois isso não faz parte da realidade de alguém que não se dispôs para sair de si e ir ao encontro dos demais.

Como consequência da situação, encon­tramos o hedonismo, considerado como a doutrina do prazer pelo prazer. Alguns imaginam que esta última só se verifica no contexto da sexualidade-afetividade. No entanto, se observarmos bem vamos en­contrar pessoas ditas cristãs que só fazem o que lhes concede prazer: só vão à Igreja, à missa, ao terço, às obras de caridade, aos favelados e marginalizados se isso lhes pro­porcionar prazer. Morreu o prazer acabou a esperança de mudança e, na sequência, a opção pelo Evangelho dos pobres de Nazaré.

Agora podemos perguntar: Desde quando é prazeroso cuidar de uma ferida purulenta no corpo ou no coração das pessoas? Até que ponto podemos sentir prazer em reconhecer a situação de miséria em que vive boa par­te de nossos irmãos e irmãs? Muitas vezes ir  à missa ou participar de uma reunião não é prazeroso, mas vamos ao encontro de melho­rias religiosas e sociais, porque esperamos um mundo mais humano e mais digno para todos. Filiamo-nos a uma sociedade alter­nativa, chamada pela Igreja de Civilização da Esperança. Não vivemos em grupo para cumprir um mandamento, mas, pelo con­trário, pelo fato de assumirmos um preceito existencial, no qual somos capazes de dizer a nós mesmos que vale a pena ter esperança!

Como filhos amados do Pai Eterno não nos é lícito deixar de acreditar na vida e muito me­nos cruzar os braços defronte as dificuldades do cotidiano. Não podemos assumir a postu­ra daqueles que cruzaram os braços por que deixaram de ter esperança. “Uma pessoa pode viver quarenta dias sem alimento, três dias sem água, oito minutos sem ar, mas nenhum minuto sem esperança” (Autor desconheci­do). Ela é a vida de Deus que brota em nós.

Deixar de ter esperança é o mesmo que deixar de viver, assumindo, assim, uma realidade vegetativa. Os consumistas, os ególatras e os hedonistas são pessoas que desistiram da existência e abraçaram aqui­lo que lhes foi apresentado imediatamen­te como resposta fácil e descompromis­sada. Iremos nós nos unir a esta torcida? Ou buscaremos forças para ajudá-los na busca de uma realidade mais redentora e redimida à luz dos filhos da esperança?

É tudo uma questão de escolha! A quem queremos servir? Ao desânimo ou a espe­rança? Para tal basta que deixemos passar tudo o que se coloca como resposta imediata para a vida, mantendo os olhos fixos naquilo que é duradouro: Cristo Jesus, autor e consuma­dor da nossa esperança!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

Missionários do Amor de Deus

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No dia 09 de novembro de 1732 nascia a Congregação Redentorista. Santo Afonso afastou-se da cidade e foi recolher-se nas montanhas porque estava cansado. Esse fato simples foi a ocasião que Deus reservou para manifestar-se na vida de Afonso. A Congregação Redentorista é fruto do amor de Deus. A experiência que Santo Afonso fez do amor de Deus, abriu os seus olhos e o seu coração para contemplar e acolher o povo simples e pobre que andava abatido como ovelha sem pastor. Afonso sentiu compaixão daquela gente. Ele cresceu na consciência de que fora ungido para evangelizar os pobres e não teve mais descanso. Decidiu formar um grupo de homens que tivessem fé profunda, esperança alegre e caridade apostólica para testemunhar e anunciar aos mais pobres o evangelho do amor de Deus que a todos quer salvar.

Hoje, os redentoristas assumem o desafio de manter vivo na Igreja o carisma fundacional da Congregação. Isso só é possível ao redentorista que estiver enraizado nas profundezas do coração de Deus. Sem uma profunda e verdadeira experiência do amor de Deus não é possível testemunhar e anunciar o evangelho da copiosa redenção. O que move o missionário redentorista a sair para evangelizar os mais pobres é o amor de Deus que ele experimenta na própria vida: “Nisto conhecemos o Amor: ele deu a sua vida por nós. E nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos”(1Jo 3,16). Para doar a vida aos irmãos, testemunhando e anunciando o evangelho do amor que redime, o missionário redentorista se esforça para ser disponível, dinâmico e criativo. Quando um redentorista se acomoda e coloca restrições para sair em missão, é sinal de que não experimentou o amor de Deus ou esfriou no amor porque descuidou da sua vida espiritual. Cultivar a vida interior, a intimidade com o Santíssimo Redentor é cuidar para que a nossa vida tenha profundidade e esteja enraizada em Deus.

Na força da fé, na alegria da esperança e com o amor de Deus que foi derramado em seu coração pelo Espírito Santo, o missionário redentorista proclama: “Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! Com efeito, é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus!”(Ef 2,4-5.8). Ouvir e acolher no coração essa mensagem do amor de Deus manifestado a nós por meio de Jesus Cristo, ilumina a vida, traz esperança e paz. A pregação do redentorista é para recordar às pessoas o tanto que Deus nos ama e suscitar nos corações a liberdade para corresponder a tanto amor, mediante a conversão para viver a vida nova em Cristo.

Que a exemplo de Santo Afonso, São Geraldo, São Clemente, Pe. Pelágio e de tantos outros missionários santos, nós sejamos também santos, audaciosos e vigorosos no anúncio da copiosa redenção.

Pe. Fábio Bento da Costa, C.Ss.R.

Superior Provincial

Por uma existência mais espiritual

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Na atualidade precisamos recorrer não somente aos tratados espirituais, mas, sobretudo, aos gran­des mestres da espiritualidade para sermos pessoas mais contemplativas e, ao mesmo tempo, mais humanas. Na vida dos místi­cos está o itinerário fundamental para a li­bertação interior do indivíduo: o encontro com Jesus de Nazaré! Nele e por Ele somos capazes de adentrar o mistério de Deus!

Infelizmente ainda é intensa a quantidade de pessoas que se distanciam da experiência da fé. Esperam chegar à terceira idade para assumirem uma vida de conversão em Deus. Muitos são aqueles que pensam a espiritualidade como um meio de tolir a nossa liberda­de. Espiritualidade seria sinônimo de caroli­ce, fechamento, isolamento das pessoas e das coisas boas da vida, resignação e sofrimento.

Viver espiritualmente não é uma perda, mas um ganho da pessoa humana. Ganhamos em qualidade de vida ao nos tornamos pesso­as redimidas pela experiência de Deus. Nossa vida ganha sentido, nosso coração lucra um norte e nossa história se investe em esperan­ça! Parece até uma linguagem capitalista, todavia é só uma forma de linguagem para expressar que Deus não nos tira nada, pois é pura gratuidade. A única coisa que perdemos é aquilo que nos afasta de seu amor de Pai e de sua ternura de Mãe.

O objetivo maior da vida espiritual é comunicar às pessoas o cenário do Transcen­dente e a hierofania do Sagrado no tempo. É um caminho de silêncio e de busca incessante pela face do Divino que se apresenta na solidão acompanhada pelo humano. Aqui a oração se apresenta como essencial para a vi­vência do Reino de Deus. A oração é o hálito da alma e a experiência fundamental para o reconhecimento da necessidade que temos de Deus. Por meio da oração, a espiritualidade é gestada no interior da pessoa humana.

Vivenciada interiormente a espiritualida­de torna-se manifestação de Deus no mun­do. Logo depois vem a leitura bíblica, como devoção e não como debate teológico. Em seguida está a entrega contínua à vontade de Deus e por fim, seguem as demais realidades: na autodisciplina, na orientação pelo Espírito Santo, na virtude do amor e no julgamento prático. Na experiência mística a oração se volta para a conversão do “eu interior”: é o momento do “estar a sós” para que o Divino se torne humano e o humano de torne Divino, em um movimento contínuo da encarnação de um no outro, sem simbiose, mas na reci­procidade existencial dos dois seres ontoló­gicos.

Por meio da espiritualidade histórica a mística torna-se a proclamação da liberdade e da fidelidade em Jesus de Nazaré. Assim continuamos a missão redentora de Jesus na peregrinação interior pelas trilhas do mundo. Aprendemos a olhar o mundo e o tempo na ótica de Deus. Diante das dificuldades na pe­regrinação interior no mundo, Deus se apre­senta como o único recurso seguro e eterno. Posteriormente a espiritualidade nos convoca a uma vida piedosa em Deus e a luta paulati­na contra a intolerância à justiça e a favor da fraternidade entre os povos.

Por outro lado, a espiritualidade também insiste que a mensagem bíblica não deve fi­car somente nos redutos, mas deve ser antes impregnada ao coração, para ser vivenciada e testemunhada no mundo. Assim nos torna­mos “andarilhos de Cristo” na sociedade.

Na essência da espiritualidade está a de­dicação de oferecer-se a Deus sempre e em todo lugar. Viver uma vida de oblação na escola da caridade! Tornamos-nos pessoas atentas às necessidades do mundo. Somos capazes de reconhecer no rosto dos pobres o rosto de Cristo, que ainda peregrina no sofri­mento humano. Nossos tímpanos são rompi­dos pelos gritos de dor e desespero que ema­nam no coração do mundo. A espiritualidade nos ensina o limite da vida e constrói em nós um coração próximo ao de Deus! Por isso, que ao falar de espiritualidade é impossível dissociá-la da conversão da pessoa humana. As raízes do nosso ser são transformadas por meio da experiência em Deus.

Por fim, a espiritualidade não se reduz às técnicas de oração nem somente a cami­nhos para a meditação. Pelo contrário, ela está presente na gênese da experiência da fé. A espiritualidade também não é só conceito, mas, principalmente vivência eficaz e assaz, com conceitos vivos e sem ambiguidades, do mistério de Deus. A espiritualidade é precisa, simples e extremamente esclarecedora. Resu­me-se em um modo de ser e viver, no mundo, sob a ótica de Deus. Que estejamos abertos para permitir que Deus possa “ser e viver” em nós!

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

Viver e anunciar o Evangelho

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Refletir sobre a ação evangelizadora da Igreja nos faz lembrar do Apóstolo Paulo, o missionário das Nações, que tinha paixão por Jesus Cristo e uma clara certeza de que a sua vida estava a serviço do Evangelho: “Anunciar o evangelho não é título de glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho!”(1Cor 9,16). Inspirados e provocados pelo ensinamento e pelo exemplo de São Paulo, todos os batizados que fazem a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo pela fé, têm a obrigação de anunciar o evangelho e testemunhar que Jesus Cristo é o Senhor. Muito mais espera-se essa atitude daqueles que consagraram a vida para serem missionários.

Os missionários redentoristas aplicam a si mesmos as palavras do Apóstolo – “Ai de mim, se eu não evangelizar!” – porque têm consciência de que existem para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus aos mais pobres e abandonados. “A Congregação participa do mandato da Igreja que, por ser sacramento universal de salvação, é, por natureza, missionária”(C. 1). A nossa ação evangelizadora tem por objetivo levar as pessoas ao pleno conhecimento de Jesus Cristo pela fé, e, consequentemente, à conversão para que vivam na dinâmica do Reino de Deus e cheguem à salvação.

O grande desafio para o missionário é que ele seja um homem de fé e que esteja em contínuo processo de conversão. Palavra e atitude não se separam. Por isso, nossos desejos e nossos sentimentos precisam ser evangelizados, pois o modo de viver do missionário é um eloquente anúncio do evangelho, ou não.

Crer em Jesus Cristo e viver de acordo com o evangelho é tarefa dura porque exige renúncias, rupturas, podas, disposição para perder e para morrer. É o dilema do cristão que vive no mundo sem ser do mundo. Viver segundo o evangelho e ser um evangelizador implica andar na contra-mão do mundo. Poucos têm essa coragem. É mais fácil e dá prazer entrar no esquema do mundo. É pena ver jovens cristãos, inclusive na Vida Religiosa, acomodados na zona de conforto do mundo, aderindo ao que é supérfluo e se entupindo de coisas na ilusão de prencher o vazio existencial. Tornam-se superficiais e perdem o sentido da vida.  A juventude devia ser criativa, dinâmica, crítica e lúcida para fazer a diferença no mundo sem sal e sem luz. O Papa Francisco chamou a atenção dos cristãos para “o risco de se tornarem mundanos”. É triste econtrar “cristãos diluídos, que se parecem com o vinho aguado, e já não se sabe se são cristãos ou mundanos”.

Anunciar o evangelho é nossa obrigação porque consagramos a nossa vida para isso. A graça de Deus nos conceda ser homens de fé profunda, de esperança alegre e inflamados de caridade para testemunhar que Jesus Cristo é o centro e o fundamento da nossa vida.

Pe. Fábio Bento da Costa, C.Ss.R.

Superior Provincial

O Sínodo nos leva ao Evangelho de Jesus e ao Jesus do Evangelho

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A misericórdia é a marca registrada dos Evangelhos. Engana-se quem a define a partir da mera piedade, a ponto de confundi-la com aquela comiseração vazia de sentido, que beira a dó diante do sofredor, inclusive por não lhe propor nenhum tipo de transformação. Ali, onde a dor impera, não somos juízes da moral nem reguladores da doutrina, mas tão somente servos da ação misericordiosa de Deus, que cura os feridos da vida com o bálsamo da compaixão e o remédio salutar da fé.

É necessária alma samaritana para compreendê-la, na verdade e na justiça que lhe são merecidas (cf. Lc 10,30-37). Distante de ações concretas, não há misericórdia que se sustente. Ela sempre solicita respeito, jamais requer, para si, qualquer tipo de pena. No lugar de condenar, a misericórdia acolhe e redime. Em vez de gerar sanções legalistas, ela abraça, perdoa e reconcilia. Só depois disso é que solicita a conversão do coração.

Pelo fato de Deus agir, única e exclusivamente, pelo princípio da misericórdia, com a comunidade eclesial não poderia ser diferente. A Igreja não é apenas agente, mas também alvo da misericórdia divina. É, ao mesmo tempo, remetente e destinatária da misericórdia. Assim atesta o Concílio Vaticano II (1962-1965), por meio da Constituição Dogmática Gaudium et Spes.

Nos tempos atuais, precisamos deixar ressoar aqueles dizeres sempre novos do texto conciliar, sobretudo, ao afirmar o vínculo irrestrito e profundo da Igreja com a história humana, entremeada por conquistas e adversidades: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.

Presidindo a Igreja, na caridade, o Papa Francisco tem colocado dois itinerários bastante específicos para a fé eclesial, a partir do testamento da misericórdia. O primeiro tem se efetivado neste mês de outubro, mediante a Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos de 2014, cuja missão está em receber e reunir os testemunhos de todas as dioceses do mundo, bem como as recomendações para a vivência autêntica da fé entre as famílias. Já o segundo caminho se efetivará na Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2015, na qual serão traçadas as linhas de ação pastoral voltadas para cada pessoa humana, inserida no contexto familiar.

Na primeira fase, aproximadamente 190 bispos prelados se fizeram presentes, com direito a voto. Além deles, também havia outros 60 colaboradores-especialistas e auditores-observadores, aptos a fomentarem as discussões nos círculos menores, sem a possibilidade de participação nas votações, por se configurarem como não prelados. Independente disso, o sentimento em comum era o de devoção à fé, todos empenhados no acompanhamento das famílias, lendo as suas dores, na perspectiva da misericórdia.

Após uma semana em torno de opiniões diversas, mas nem sempre antagônicas, foi elaborada uma síntese sinodal chamada de Relatio post disceptationem (Discursos depois dos debates), que desembocará em um documento final, num futuro vindouro. Além do aprofundamento teológico sobre o papel eclesial e social das famílias e das temáticas envolvendo a anticoncepção, o aborto, a nulidade matrimonial, as convivências e as uniões de fato, também foram discutidas as relações de casais homossexuais, responsáveis e estáveis, bem como a adoção de crianças daí decorrentes.

Do Sínodo Extraordinário de 2014 ao Ordinário de 2015, algumas questões permanecem em aberto, necessitando de um exame a fundo, a partir da colegialidade eclesial. Um deles é a comunhão aos divorciados e aos reesposados em contrariedade à disciplina canônica. Na condição de médicos da alma e não de censores da fé, os bispos ainda discutirão, à luz da misericórdia de Jesus, se a disciplina atual deverá ser mantida, enquanto regra geral ou se há possibilidade de uma abertura em situações bem precisas e individuais, ponderando cada caso, por meio de um itinerário de penitência e conversão, acompanhado pelo bispo diocesano.

No fim das contas, não se trata de assumir uma postura divorcista, na tentativa de dissolver um laço sacramental que é indissociável por sua constituição divina, mas, talvez, de conceder uma exceção ajuizada, sobretudo, quando o vínculo matrimonial fracassou, independendo diretamente de uma das partes, como é o caso do adultério persistido. Nesses casos pontuais, uma segunda união só seria possível à parte inocente, assim como já acontece nas Igrejas Católicas Ortodoxas, mas só depois de um apurado caminho que passa da confissão à absolvição.

De qualquer forma, é uma abordagem que não me compete aprofundar, inclusive por se tratar de uma matéria de debate, análise e reflexão dos pastores da Igreja. Só me cabe afirmar que nos tempos antigos, São Basílio de Cesaréia e, nos tempos modernos, Santo Afonso Maria de Ligório já denunciavam tanto o laxismo, quanto o rigorismo moral. Ambos sinalizavam para o discernimento misericordioso, dentro da mais primitiva tradição da Igreja.

Em contrapartida, outras questões já podem ser consideradas, em comum acordo entre os bispos, como, por exemplo, o reconhecimento de que a Igreja é uma mãe acolhedora, pronta a receber todos aqueles que desejam fazer a experiência da misericórdia divina, dentre eles os homossexuais. Para além da orientação dos afetos homoafetivos está a dignidade da pessoa humana e o respeito incondicional a ela em quaisquer circunstâncias. Há direitos que lhes devem ser garantidos, pois é uma questão de civilidade e cidadania. Isso não contradiz nem os equipara ao matrimônio cristão, mas lhes concede uma guarida permanente, respeitante e digna, enquanto filhos de Deus.

Mesmo que o Sínodo seja um elemento consultativo, pertencendo ao Papa a decisão final sobre cada tema abordado, fica a herança da colegialidade do Bispo de Roma com os demais bispos, no sentido de levar ao mundo o advento da misericórdia, que resplandece a face amorosa de Deus. Antes das necessárias leis e regras, vem sempre o discernimento dos espíritos, dentro de um contexto real.

Originada de Deus, sagrada e inviolável por natureza, a misericórdia se constitui como a célula vital da Igreja, destinada a servir a todas as famílias: reunidas no vínculo do amor, alicerçadas na fortaleza da fé e alimentadas pelo dom da esperança. Como se vê, não há evangelização que não passe, antes, pelo Evangelho da Família.

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

 

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